NEOLOGISMOS NO INÍCIO DO CINEMA
Os primeiros exibidores de cinema trouxeram um vocabulário novo para o público. A imprensa usou a palavra francesa "écran" antes de falar em "tela". E as criações cinematográficas eram denominadas "vistas", "quadros" ou "cenas", distinguindo-se "vistas fixas" e "vistas animadas", como identificação para o que se denomina hoje "slide" e a nova tecnologia de imagens em movimento: o cinema. É comum em um texto da época a alternância das expressões "vista animada", "cena animada" e "fotografia animada". Quando se começou a utilizar o projetor cinematográfico em sincronia com o fonógrafo, dizia-se que a "sessão" ou "função" ofereceria "phono-scenas", adotando a mesma denominação européia. No começo do século, foi comum o uso da palavra "fita" como alternativa para "vistas animadas". No Brasil, "fita" passou a ser usada na linguagem comum como sinônimo de simulação, dizendo-se que algo acontecido fora apenas "fita" para enganar alguém; e "fazer fita" era agir de maneira a chamar atenção dos outros, por analogia à forma interpretativa dos astros da tela. Com o crescimento da extensão dessas fitas, dizia-se que elas eram constituídas por "atos" ou "partes", para indicar o número de "rolos" que seriam projetados. Essas denominações somente desapareceram em 1935, quando os cinemas, na sua grande maioria, já dispõem de dois projetores que permitem a exibição contínua. A palavra "fita", na década de 10, sobrepõe-se à denominação "vista". e depois divide essa preferência popular com a palavra "film" e, excepcionalmente, "película". No final da década de 20, a distribuidora Urania-Filme, dirigida por Luiz Grentener, que trazia os filmes alemães para o Brasil, adotou formalmente em sua publicidade a grafia "filme" com o e final. A respeito do surgimento da denominação "filme", recolhemos da revista brasileira "Selecta" (Ano XIII, nº 49, 7.12.27), o seguinte artigo: "Film ou Filme? - A idéa, posta em pratica por uma conceituada empresa cinematographica, de substituir nos seus reclames e notícias a designação film por filme, veiu lançar no taboleiro das discussões, mais ou menos complicada, a velha idéa de collocar na linguagem nacional os termos que as exigencias scientificas nos obrigam a importar e a metter no nosso diccionário de todos os dias. À pellicula photographica que se desenrola nos projetores, houve quem chamasse fita, mas o termo é excessivamente generico, como igualmente o é pellicula, que o público não aceitou. Film entrou mais precisamente com o predominio norte-americano. Evidentemente a empresa a que nos referimos, que é a Urania-Filme, está com a razão. Se nós já nos arrojamos a organizar derivados d'essa raiz, como seja filmar e filmagem, tratemos de cobrir com as vestes legaes e honestas o termo originario e demos-lhe os valores graphicos que a sua prosodia exige. Não dizemos fil, nem trasalamos o me final, o que seria absurdo. Conseguintemente dêmos a essa consoante isolada e incolor a vogal que lhe concede fôros silabicos. Dizemos filme pois escrevámos filme. Isto é simples, pelo menos quando se trata sem pruridos scientificos, com esta simplicidade que os especialistas devem achar barbara. Mas se entregámos o problema aos homens de philosophia, aos catadores de pulga do extrangeirismo, teremos tarefa para um século, e discussão que nunca mais acabará. A questão está toda em termo que se generalize e passemos todos a escrevel-o d'esta forma."