OPINIÕES SOBRE O LIVRO "FORTALEZA E A ERA DO CINEMA"

Henri BOUSQUET - Historiador de Cinema

J'ai bien reçu votre Livre. C'est un travail impressionant. J'ai remarqué avec intérêt que le cinéma français des débuts était déjè présent au Brésil dès 1900. J'aurai grand plaisir de faire le compte rendu de votre ouvrage dans Les Cahiers de la Cinémathèque et dans 1895 lorsqu'il sorira des presses. Henri BOUSQUET - Historiador de Cinema

Alice Gonzaga - Escritora

"Estamos escrevendo para parabenizá-lo pela importante edição de "Fortaleza e a Era do Cinema". Recebemos um exemplar de presente do maestro Aloysio de Alencar Pinto, que o recomendou bastante. Já haviamos colhido referências sobre o seu trabalho, que utilizamos em nosso livro "Palácios e Poeiras", mas não esperávamos um trabalho tão cuidadoso e profundo. Ficamos encantados com a profusão de informações, muitas delas complementares às nossas pesquisas. Passamos a divulgar seu livro entre os pesquisadores do Rio de Janeiro..." Alice Gonzaga, Diretora da Cinédia Estúdios e Autora de "Palácios e Poeiras -100 Anos de Cinema no Rio de Janeiro".

Blanchard Girão - Escritor

Bravo!" Parabéns! Sensacional trabalho. Sem dúvida a mais completa obra de cinema editada no Ceará, talvez no Brasil. Agora, à 2a. parte. Esta nos dirá mais de perto ao nosso saudosismo de cinéfilo. Blanchard Girão - Escritor

Nirez (Miguel Ângelo de Azevedo) - Historiador

"Fortaleza e a Era do Cinema" não é um livro para deleite mas sim uma obra de consulta imprescindível para quem queira fazer doravante qualquer trabalho de pesquisa sobre o cinema. E para que se tenha confiança total nas informações, basta dizer que a obra é assinada por Ary Bezerra Leite, a maior autoridade no assunto em nossa terra, quiçá no país." Nirez (Miguel Ângelo de Azevedo) - Historiador

JURANDIR NORONHA – “Pioneiros do Cinema Brasileiro – 1896 a 1936” - CD Rom – EMC – Empresa de Marketing Cultural – São Paulo.

Ary Bezerra Leite – FORTALEZA E A ERA DO CINEMA: Pesquisa Histórica. –

Trabalho meticuloso referente à produção e exibição de filmes no Estado do Ceará. Citações, com detalhes curiosíssimos, sobre o pioneirismo nas filmagens, bem como a respeito dos negócios de distribuição e exibição.

BLANCHARD GIRÃO – PASSAGEIROS DO ONTEM E DO SEMPRE. Fortaleza, Editora ABC, 2001.

pp. 297-307

ARY LEITE CONTA A HISTÓRIA DE FORTALEZA EM DOIS BELOS LIVROS

A humildade franciscana de Ary Leite esconde um espírito voluntarioso e determinado, que busca e consegue alcançar objetivos difíceis. Com essa força interior, tem realizado trabalhos da maior significação cultural e histórica, de que fui entusiasta acompanhante ao longo de muitos anos. Somos amigos desde a mocidade já esmaecida ao longo de muitos anos. Em nome dessa amizade, Ary Leite honrou-me com dois convites a que atendi envaidecido: a apresentação do seu livro “Fortaleza e a Era do Cinema”, obra de fôlego não apenas sobre a inserção da grande arte na capital cearense, a partir dos últimos arrancos do século XIX, na qual discorre, com base em importantes pesquisas realizadas na Europa e nos Estados Unidos, a respeito dos primórdios da fantástica invenção dos irmãos Lumière, bem assim da reação do povo cearense diante da novidade. O segundo convite foi para prefaciar outro profundo, cuidadoso e competente esforço que ele transformou no livro “A História da Energia no Ceará”, que em verdade, contém o próprio roteiro do desenvolvimento de nossa cidade tendo como referencial as fontes energéticas que impulsionam esse progresso. Tendo um pequeno esboço biográfico do Autor, optei pelo aproveitamento, nestas páginas, do discurso de apresentação de “Fortaleza e a Era do Cinema”, através do qual o leitor poderá despertar para a real importância desse livro para um estudo sério a respeito do caminhar desta cidade de que tanto nos orgulhamos, e que hoje é uma das principais metrópoles brasileiras. Disse eu, em prestigiada noite de autógrafos no Náutico Atlético Cearense, estas palavraa acerca de meu brilhante amigo e colega Ary Leite e sua extraordinária obra sobre cinema, cujo segundo volume está em preparo: “Nos remotos anos cinqüenta, Ary Leite seguiu o destino de grande parte dos intelectuais nordestinos: partiu para o Rio de Janeiro na busca de mais espaço, de mais largos horizontes. Já levava consigo, senão a idéia de escrever uma obra sobre o assunto, mas seguramente a mania constante, quase obsessiva, pelo cinema, de cuja intimidade se acercou através da presença em clubes e instituições que se devotaram a essa arte, entre nós, e da freqüência assídua às salas exibidoras da cidade. Alimentava, desde bem moço, o projeto de produzir uma espécie de índice cronológico dos filmes exibidos em Fortaleza desde priscas eras, ou, mais precisamente, a partir de 1897, quando a invenção dos irmãos Auguste e Louis Lumiére, com apenas dois anos, chegou à terra cearense. No Rio, centrando as atenções no Curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas, mantinha vivo o plano de há muito acalentado. Ao término do curso, com prêmio ao primeiro lugar conquistado em sua turma, recebeu uma bolsa de estudos em Paris. Abria-se diante de Ary Leite a oportunidade excepcional de aprofundar sua cultura geral e, em particular, sobre o cinema, este maravilhoso invento que, unificando a imagem em movimento à palavra, logrou traduzir em toda a sua plenitude as emoções humanas. O contato com ilustres personalidades da vida cultural da capital francesa, especialmente com figuras de proa da cinematografia daquele País, robusteceu o projeto de Ary Leite de escrever um livro sobre a história do cinema, partindo de sua caminhada em Fortaleza, para uma análise abrangente da universalidade da sua missão artística, dos seus avanços tecnológicos, de seu poder político-social e econômico. As anotações pessoais já amareladas pelo tempo, os recortes de revistas e jornais de Fortaleza, do Rio, do exterior, de toda parte – tudo aquilo que amealhara ao longo dos anos versando sobre seu tema predileto – veio a ser sobremodo enriquecido em sua vivência parisiense. Ali, freqüentando os ambientes cinematográficos, conhecendo diretores, produtores, atores e técnicos, adquirindo obras especializadas, tornando-se cliente constante das melhores livrarias e leitor compulsivo de publicações próprias – em particular dos Cahiers du Cinéma – ele distendeu o seu projeto primitivo. Não faria, como não fez, apenasmente aquele catálogo das películas exibidas em cem anos de cinema em Fortaleza. Seria uma obra de referência, de pesquisa e análise sobre a grande arte. Com um pé na Europa, a partir de Paris, Ary Leite foi conhecer outros países, entrando em contato direto com os centros produtores cinematográficos da Inglaterra, da Itália, da Dinamarca e outras nações européias, adquirindo, como poucos brasileiros, um enorme cabedal de conhecimentos acerca da indústria cinematográfica em todos os seus múltiplos aspectos. Nessas andanças de legítimo “globe-trotter”, Ary Leite esteve, também, na América do Norte e Hollywood, o maior de todos os centros de produção cinematográfica do mundo, foi seu alvo principal. Na visita a estúdios e a escritórios, museus e lojas, livrarias e bibliotecas, foi obtendo cópias de velhos filmes, notadamente dos “clássicos” – sendo entre nós um dos mais importantes colecionadores de grandes sucessos das telas – e aproveitou as suas várias viagens aos Estados Unidos para estudar as técnicas e a história fabulosa da indústria do cinema norte-americano. Radicando-se de novo em sua terra natal, e raptando algumas nesgas de tempo de sua azáfama cotidiana, como professor universitário, produtor de rádio, redator de jornais e técnico em administração pública, Ary Leite retomou, como pôde, o seu velho e inseparável projeto do livro sobre cinema em Fortaleza. Por pelo menos cinco anos estive ao seu pé, cobrando-lhe a realização da obra. Ary, naquele seu jeitão tranqüilo de quem sabe o que quer e como fazê-lo , apenas repetia que o trabalho estava a caminho. Eis agora o seu primeiro volume, envolvendo o largo período situado entre os anos de 1891 e 1931. As pesquisas de Ary Leite, pelo que lemos nesta parte do livro, antecedem a própria invenção dos Lumière, de 1895. A narrativa principia quatro anos antes do lançamento, em Paris, do cinematógrafo, precisamente em 1891, quando Fortaleza, então uma cidadezinha com apenas 35 mil habitantes, recebia incrédula e estupefacta uma das grandes maravilhas da inteligência humana: o telefone. Naquele mesmo ano de 1891, pleno de fortes emoções para o burgo pobre e sombrio, ainda alumiado a bicos de gás, chegava-nos o bioscópio, um sistema fantástico e mesmo inacreditável para a época, suscitando dúvidas e descrenças no seio do povaréu. E registra o livro que foram seguidamente aportando outros inventos, geringonças complicadas que marcaram a difícil caminhada até ser alcançado o engenho dos dois irmãos franceses, que se tornaria, em um século, o mais importante instrumento de divulgação artístico-cultural e de lazer da sociedade humana. O desfile dos precursores do cinema encerra-se em setembro de 1897, dois anos apenas depois do lançamento em Paris do cinematógrafo, com a chegada em Fortaleza dos primeiros kionetoscopes de Edison, marcando o início dos espetáculos de fotografia em movimento, embrião do cinema, graças à iniciativa do empresário conterrâneo Manoel Pereira dos Santos, vulgo Manoel Coco. A crônica dessa emocionante saga em todas as suas nuances, desde os primitivos exibidores ambulantes, as primeiras salas fixas, todos os filmes apresentados desde então, percorrendo um lapso de quase cem anos, estão neste precioso esforço de pesquisa de Ary Leite, cujo primeiro volume ora é lançado ao público. Obra de fôlego, sua extraordinária importância foi de pronto percebida pela Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Ceará, através do seu titular, jornalista e professor Paulo Linhares, que determinou providências para a sua editoração, numa iniciativa que valoriza a ação daquele Órgão voltado para assuntos culturais de nosso Estado. Com “Fortaleza – a Era do Cinema”, Ary Leite oferece certamente a maior contribuição ao memorialismo cinematográfico brasileiro, gênero praticamente intocável pela intelectualidade do País. Observa-se logo que não se trata de um simples índice cronológico das películas exibidas em nossa Capital a partir daquele “Avenida da Ópera”, produção francesa de 20 minutos de duração, rigorosamente o primeiro visto pela população fortalezense. Este livro é muito mais que isso: é o resgate de todo um longo capítulo da história de nossa ciade, que ora completa 270 anos de fundação. Aliás, na apresentação da obra, Ary Leite ressalta a sua preocupação em preservar a memória de Fortaleza. E consegue, com muita sensibilidade, reconstituir o clima da cidade, suas emoções e entusiasmo com o advento das fantásticas novidades oriundas dos grandes centros da Europa. O fonógrafo, o telefone, o automóvel, a iluminação elétrica, os novos teatros, os bondes, as elegantes sessões de cinema no Majestic tudo está presente, envolvendo o leitor numa fascinante atmosfera e lançando-o na reconquista do passado de sua cidade para sentir o processo do seu desenvolvimento. O cinema, objeto do livro, entra no contexto geral da memória de Fortaleza pela força evocativa dos episódios narrados pelo autor com base nos registros da época: colunas de jornais, anúncios, folhetos de divulgação, tudo que procurou e descobriu para compor esta obra que só merece um adjetivo: - empolgante. Ary Leite extrapola em muito seus propósitos iniciais. Partindo do particular, no caso a cidade de Fortaleza, ele produz um trabalho de abrangência universal, num esplêndido contributo à própria história do cinema. De tal modo, que o livro aqui lançado está concorrendo a uma premiação internacional. Este primeiro volume alcança seu término quando o cinema muito cede lugar ao falado, o que ocorre em Fortaleza, no dia 19 de junho de 1930 ocasião em que foi apresentado, na tela do Cine Moderno, o filme “Melodias da Broadway”, produção norte-americana de 1929. O segundo volume, em fase conclusiva, abrangerá o período de 1931 até os nossos dias, dizendo mais de perto às gerações de passado mais recente e às atuais. “Fortaleza e a Era do Cinema” logra transmitir-nos todo o vigor cultural e, principalmente, emocional dessa indústria-arte, orgulho do século XX, embora surgida nos arrancos derradeiros do anterior. Através dele, sentiremos o palpitar dos nossos ancestrais com as maravilhas do mundo fantasioso criado pelo cinema. São mais de 500 páginas, mas que ela leveza do estilo e da matéria exposta, bem assim pelo documentário fotográfico que o ilustra, obtido pelo autor, com ingentes esforços junto a museus e colecionadores de diferentes países, a gente consegue ler sem cansaço e com imensa satisfação. Obrigado.” Para o extaordinário livro – “História da Energia no Ceará”, escrevi o seguinte: PREFÁCIO “A ESPOPÉIA DA ENERGIA DO CEARÁ Blanchard Girão Ler este livro sobre a história da energia no Ceará é como assistir ao nascimento, depois viver a meninice e a risonha adolescência, até atingir a idade adulta, desta cidade que se faz metrópole aceleradamente. O Prof. Ary Bezerra Leite, nestas páginas, refaz toda a trajetória de Fortaleza, desde quando o Pajeú franqueou suas entranhas a temerários navegadores, disso resultando o surgimento do minúsculo núcleo populacional que viria a ser, com o transcorrer dos tempos, a bela “loira de sol e branca de luares” da definição do poeta. Sol e lua, binômino luminoso a envolver a pequenina povoação que namorava o mar sopb os coqueirais de suas alvas praias. Se ocorria luar, tudo bem. Nas noites sem luar, todavia a escuridão envolvia a infanta vilazinha. E começa daí, com as velas de cera de carnaúba alumiando a Fortaleza recém-nascida, a história de Ary Leite sobre a energia no Ceará, a aprincípio circunscrita à necessidade de sua iluminação artificial. Sufocada a rebeldia dos Tremembés, dos Paiacas, dos Jaguaribaras e de tantas outras tribos que por cá habitavam, começava a tomar feição urbana o povoado ao derredor da paliçada erguida contra a arremetida dos aventureiros, fortificação primitiva à boca do rio Ceará levantada pelo açoriano Martim Soares Moreno, o “Guerreiro Branco” de Alencar, depois a outra no desaguar do Pajeu ou Marajaik, construída pelo batavo Mathias Beck, da qual parece originar-se mesmo a atual metrópole cearense. Do forte de Beck partiram as primeiras ruelas de chão batido, cruzando-se entre si, onde foram se erguendo edificações mais sólidas e de bem diversa concepção arquitetônica se compradas às choupanas tribais. Em narrativa leve e detalhada, tudo isso se encontra nesta obra do Prof. Ary Leite. Na verdade, a história da energia, que o livro sintetiza, é a própria história do nosso progresso. E é com emoção permanente que você acompanha o desenvolvimento de sua cidade, em particular, e de todo o Estado do Ceará. Ele nos situa em 1612, com Moreno, 1649, com Beck e em 1726 quando uma Carta Régia institui oficialmente a vila de Fortaleza de Nova Bragança, mais tarde Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Desfilam por estas páginas figuras imorredouras, como o Governador Sampaio, cujo nome se acha degradado em meio a baratas e ratazanas do comércio de secos e molhados; o boticário Ferreira, um dos pioneiros da nossa urbanização, hoje imortalizado no mais famoso dos logradouros citadinos; de Silva Paulet e Adolfo Herbster, responsáveis pelo traçado clássico de nossas ruas; do Intendente Guilher Rocha, de Ildefonso Albano, de Mr. Hull, o súdito britânico cearensizado, e tantos mais que foram contribuindo para que Fortaleza chegasse onde chegou: - cidade moderna, ujma das mais importantes do País, embora ainda às voltas com graves problemas, principalmente de ordem social e econômica. O objetivo da obra de Ary Leite, comemorativa dos 25 anos da COELCE, de contar o longo percurso da energia em Fortaleza e no Ceará, foi muito além. Tornou-se mais um valioso documentário da História de nossa cidade, do Ceará e do seu povo. Num exaustivo trabalho de pesquisa, recorrendo a volumosa e acreditada fonte bibliográfica, o autor evoca os mais diferentes momentos desse decisivo fundamento no processo evolutivo de Fortaleza: a energia a serviço do esforço realizador do homem. Aí vêm à cena os tempos dos lampiões de rua, queimando azeite de peixe, muito mais à frente substituídos pelos de gás carbônico, originário da hulha, introduzidos entre nós pela ingleza Ceará Gaz, empresa que resistiria à arrancada modernizador da eletricidade por várias décadas. Acode-me então à memória desgastada a poética figura do acendedor de lampiões, com sua escadinha e uma vareta na mão com a qual, ao crepúsculo, levava ao pavio da combustão a luz débil que iluminava as retretas da Lagoinha de minha primeira infância. Aspectos chistosos da luta entre o velho e o novo, como do bonde puxado a burro substituído pelo “tramway” da Ceará Light, que chega em 1913 e leva, com seus trilhos, a cidade a conquistar novos espaços. A “Ceará Light, Tramway and Power Ltd.”, o “polvo inglês”, alvo de tantas aleivosias de políticos e jornalistas e da ira do povo fortalezense, tem seu papel considerável no desenvolvimento desta cidade, que o livro apresenta documentadamente, num estilo descontraído e gracioso que prende o leitor. Os quebra-quebra dos bondes, as tentativas de arrancar trilhos, os protestos em “meetings” eleitorais ruidosos – pano de fundo da tumultuada presença da Light, notadamente nos seus últimos anos de funcionamento, nada disso invalida a sua contribuição, especialmente, no plano do transporte coletivo, ao crescimento de Fortaleza. Dessa luta entre o passado e o futuro, Ary Leite colhe curiosidades admiráveis, como, por exemplo, o duelo entre a Ceará Gaz – detentora da concessão dos serviços de iluminação pública a gás carbônico – e a Ceará Light, que, já explorando o sistema do sistema coletivo com os seus bondes, queria assumir também o domínio do fornecimento de luz elétrica para as ruas e para as residências. Estabelece-se pelos jornais uma batalha de anúncios sobre as vantagens de uns e de outros, sem dúvida o marco inicial da publicidade em terras cearenses. Ary Leite recolhe amostras primorosas como estas: “Uma luz boa e barata é o gaz incandescente, porque é mais suave à vista, 50% mais econômico”, etc. etc. e noutra página, o troco da Light: “A melhor e mais econômica luz é a luz elétrica, e a única que lhe faz competência é a do sol”... Em 1934, a Vitório do novo. O governo rescinde o contrato da Ceará Gaz, seguindo–se uma difícil e demorada pendenga judicial. De tudo resta a aposentadoria compulsória do velho acendedor de lampiões... Nada escapa ao arguto pesquisador. Veja-se a “guerrinha” sustentada pela Ceará Light, com seus “tramways”, contra o emergente serviço de auto-ônibus, como à época se denominava esse transporte. A companhia inglêsa sentiu a ameaça e opôs resistência à chegada do novo modelo de condução coletiva, mas acabou sucumbindo ao apelo moderno. Adquiriu e lançou em diversas linhas alguns ônibus, veículos pequenos, mas confortáveis, para cerca de 17, - os menores – e 34 passageiros. O povo os apelidou de “ramonas”, alusão ao título de um filme que marcara sucesso naquele tempo. Os micro-ônibus, com os quais a Light concorria com seus próprios bondes, ajudaram a Companhia a se manter no ramo por mais alguns anos, até retirar-se em definitivo do setor, por conta da precariedade dos serviços prestados. A II Grande Guerra (39/45) impedia a importação de novos veículos e de peças de reposição. Findo o conflito universal, dois anos após, em 1947, os bondes sem energia suficiente para acioná-los e sem a indispensável manutenção mecânica, saíram de circulação. E ninguém teve sequer a lembrança de criar um “museu do bonde”, de modo a registrar, no contexto da história de Fortaleza, um dos seus mais interessantes capítulos. Até isso, todavia, o livro de Ary Leite consegue resgatar em parte, através de preciosos documentos iconográficos obtidos junto a acervos das empresas sucessoras da Ceará Light e nos arquivos partículas dos herdeiros de Mr. Hull. A Light entra, afinal, em agonia, não mais suportando o peso dos custos de sua precária operacionalidade. Deixa inclusive, de cumprir sentença trabalhista que a obrigava a conceder aumentos salariais aos seus servidores, sofrendo, em razão disso, intervenção federal. A sua nova direção procura, em desespero, soluções paliativas para o agravamento do problema da energia elétrica em Fortaleza. Surgem o Conefor, o Serviluz, usinas térmicas, troca de combustível a lenha por óleo diesel, remendos sem fim nas velhas caldeiras. Tudo é tentado, mas os “Black-outs” prosseguem atormentando a vida do povo fortalezense. Desponta por essa época a liderança de Acrísio Moreira da Rocha e a cidade sofrida delira com o seu Prefeito pela definitiva encampação da companhia britânica. A “Festa da Vitória” dura dias. Acrísio firma o seu nome na política cearense. Apesar de tudo, a crise continuava, Fortaleza sentindo persistentemente a tormentosa falta de luz. Seu crescimento industrial truncado, sua economia estagnada. Enfim, sem energia, o desenvolvimento de Fortaleza e do Ceará emperrava. O prof. Ary Leite faz um relato completo, que chega às vezes ao dramático, daqueles dias cruciais da questão energética de nossa Capital e de todo o Estado. É quando surge então a esperada “luz no fim do túnel”, neste caso literalmente compreendida. A “luz” que despontava era a do “Velho Chico”, através do aproveitamento da força da Cachoeira de Paulo Afonso, que o cearense Delmiro Gouveia, bem antes, domara parcialmente. Mas agora, por ironia, não haviam incluído o Ceará no projeto de exploração da energia do rio São Francisco. A partir desse ponto, o livro ganha proporções de epopéia, descrevendo a luta fantástica que os cearenses empreenderam para ter também o direito de participar do único processo de redenção do Nordeste, através das linhas da Hidroelétrica do São Francisco – a CHESF. Detalhes simplesmente memoráveis dessa luta são revelados nesta obra de grande significado histórico para o Ceará, na qual avultam algumas personalidades marcantes, a exemplo de Virgílio Távora. Até chegar aos dias atuais, o caminho palmilhado teve obstáculos quase intransponíveis, crescendo nestas horas a capacidade extraordinária do nosso povo no enfrentamento das maiores adversidades. Esta “História da Energia no Ceará” é uma categórica afirmação dessa capacidade, com a apoteótica chegada da energia de Paulo Afonso, penetrando pelas portas do Carirí, para alcançar a Capital e posteriormente todo o território cearense, já com a integração da Hidroelétrica de Boa Esperança. Com o domínio de outras fontes energéticas, como as de origem no petróleo e no potencial eólico do Estado, Fortaleza e o Ceará se apetrecham para o desafio do progresso do Terceiro Milênio, quando, sob a coordenação da COELCE, deveremos encontrar os meios de oferecer a todos os cearenses a plenitude de uma vida satisfatória, com base nas mais recentes conquistas da Ciência e Tecnologia. Fortaleza, outubro de 1996. BLANCHARD GIRÃO.” Em tempo: Cinco anos depois, a nova crise energética, produto da incúria dos atuais governantes, devolve-nos aos idos do Ceará Light, aos tristes tempos dos apagões.

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