[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do livro - "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume
I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320
- Fortaleza, Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS

1. JOHN PETTER BERNARD
À Senhora Maria Lúcia Maciel - em memória, neta de John Petter
Bernard.
Natural de Rotterdam, Holanda, onde nasceu a 24 de julho de
1866, John Petter Bernard, integra-se à vida de Fortaleza, a partir de 1891,
quando aqui chega para instalar a Empresa Telephonica do Ceará, iniciativa do
talento empresarial de Confúcio Pamplona. Fez-se cearense, casou e constituiu
família, contribuindo ainda com sua capacidade empreendedora para o
desenvolvimento da terra de adoção. John Petter, cujo nome de batismo Johannus
Petrus denota a origem católica, já que os holandeses dessa cren¸a adotavam
nomes latinos, logo que chegou, talvez por volta de 1890, conheceu a jovem Maria
de Lima Mendonça, a quem de imediato propôs casamento. A moça sugeriu-lhe que
tendo uma irmã solteira, mais idosa, esta é quem deveria ser escolhida.
Insistindo em sua paixão à primeira vista, o jovem holandês aceitou como
condi¸ão para o casamento ficar morando com a sogra e a cunhada, na residência
da rua Major Facundo (antiga rua do Fogo),nº645, meio quarteirão para a Praça do
Ferreira; local onde hoje existe a firma Molduras O Epitácio. O casamento se deu
a 15 de junho de 1892, ele com 26 e ela com 18 anos. O casal teve ao todo seis
filhos. O primogênito William Edson Bernard, muito inteligente, ajudou ao pai na
fábrica de malas que veio a instalar, casou-se e teve quatro filhos, todos já
falecidos. Seguiram-se, João Felipe, falecido pequeno, e Antônio Humberto, que
também trabalhou na fábrica do pai, casou-se e teve seis filhos, igualmente já
mortos. A quarta filha, Elizabeth, foi casada com Alcides Santos, comerciante
cearense, fundador da Sociedade Numismática e Filatélica Cearense e do Fortaleza
Esporte Clube. Elizabeth teve seis filhos, sendo a única que lhe sobrevive, a
senhora Maria Lúcia, casada com o Sr. Odorico Maciel de França. Mário Petrus, o
quinto filho do casal, morreu solteiro. Foi o único filho que residiu com
familiares na Holanda, para onde foi levado pelo pai, em 1910, pretendendo que
ele estudasse Medicina em Rotterdam. Advindo a grande guerra, e já tendo
falecido John Petter Bernard, os parentes holandeses alegaram que não havia
condições para mante-lo. Regressou a Fortaleza, em 1918, tendo frustrada sua
carreira de médico, mágoa que conservou sempre, pois, no Brasil teria havido um
jeitinho para não prejudicá-lo. Por influencia de Alcides Santos
tornou-se jogador de futebol no Fortaleza Esporte Clube, sendo o goleiro, em
1920, no 1º campeonato ganho por esse time. A sexta filha, Olga Petter,
permaneceu solteira, tendo vivido com a irmã Elizabeth, e foi quem criou a
sobrinha Maria Lúcia. Veio a falecer em 1990. A vida profissional do pioneiro
John Petter Bernard tem seu grande momento quando inaugurou, a 10 de setembro de
1891, a Empreza Telephonica do Ceará. Naquele momento, usava a farda da guarda
militar holandesa, uniforme com espada, obrigatório para ele em todos os
momentos solenes e que lhe concedia muito respeito. Publicações da época dão-lhe
o tratamento de Major. Responsável técnico pelo empreendimento, Petter Bernard
foi detentor do telefone nº1, na condição de "Inspetor da Empreza", primazia que
fazia justiça a seus méritos. Seu pioneirismo extende-se à introdução do
fonógrafo e do Kinetoscope. Foi o promotor de algumas das primeiras
apresentações comerciais do fonógrafo. Foi sob sua orientação técnica que a
Empreza Telephonica, a 14 de julho de 1893, apresentou a " máquina mais
maravilhosa do século XIX", e posteriormente foi o diretor do fonógrafo de
Manoel Pereira dos Santos, no Café Central, à Praça José de Alencar (antiga
praça que se localizava entre os atuais prédios da Companhia de Correios e
Telégrafos e Banco do Brasil, entre as ruas Floriano Peixoto e General
Bezerril). Ainda em 1893, instalava à rua da Assembléia (rua atualmente dividida
pelas denominações São Paulo e Visconde de Sabóia), uma fábrica de malas que à
época chamava-se "oficina de bahuleiro". Em fevereiro de 1901, transferiu sua
fábrica para a antiga Praça José de Alencar, nº4. Além de fabricar malas de
qualidade, sua especialidade, utilizando-se sempre de materiais importados, foi
responsável pela introdução em nosso meio de cadeiras espreguiçadeiras,
desconhecidas na Fortaleza do seu tempo. Enquanto viveu em Fortaleza, Petter
Bernard fez várias viagens à Holanda. "A República", de 9 de abril de 1906,
registra suas despedidas por estar viajando no dia seguinte para a Europa. É
provável que tenha viajado novamente à Europa em 1910 e 1915, quando o filho se
encontrava em Rotterdam. Membro da Maçonaria foi um dos fundadores do Asilo de
Mendicidade, a 10 de setembro de 1905, em amplo prédio no Benfica, mais tarde
transferido para a atual sede no bairro de Jacarecanga. A instituição hoje é
denominada Lar Torres de Melo, em homenagem ao também fundador e líder maçônico
José Ramos Torres de Melo. A idéia da instituição assistencial para idosos
carentes teria nascido quando Petter Bernard, após a morte de seu pai, visitou
uma organização similar holandesa. Na composição do Conselho do Asilo de
Mendicidade, que tinha como presidente o Coronel Guilherme Moreira da Rocha,
consta como um dos dirigentes o Major John Petter Bernard. Pessoa grata na
sociedade cearense, holandês naturalizado brasileiro, participa em eventos
diversos da cidade. No episódio da chegada do primeiro automóvel, em nossa
cidade, no dia 28 de março de 1909, adquirido pela Empresa Auto Transporte, do
Dr. Meton de Alencar e Major Júlio Pinto, ele aparece como representante da
empresa compradora. E ao lado de outro pioneiro, Roberto Muratori, conduziu o
veículo e estudou o seu motor na tentativa de fazê-lo funcionar. John Petter
Bernard faleceu em Fortaleza a 24 de julho de 1917, vítima de febre repentina,
meses depois de ter assistido ao casamento de sua filha Elizabeth, a 14 de
abril. Um emigrante que veio para ficar e com imenso crédito de reconhecimento
pelos serviços prestados à cidade de Fortaleza.
[Obs:As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a
grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou
publicadas.]
NÓTULAS SOBRE JOHN PETTER BERNARD
1. A nacionalidade de John
Petter Bernard é dada erroneamente em fontes diversas. O jornal "A República",
em editorial de 13 de outubro de 1892, ressaltando o êxito da Empreza
Telephonica, refere-se aos "auspícios técnicos do cidadão americano John Petter
Bernard". Por sua vez, Gustavo Barroso, no 3º volume de suas memórias,
"Consulado da China" (Rio de Janeiro, Editora Getúlio Costa, s/d), narra o
passeio inaugural no primeiro carro que chegou ao Ceará: "Ao lado do condutor,
ia o velho John Petter Bernard, dinamarquês e fabricante de malas. No assento
trazeiro, Júlio Pinto e eu." Narra depois que o carro enguiçou, e como o
motorista Rafael Dias Marques não resolvia a dificuldade, foi a vez da tentativa
infrutífera de Petter Bernard. E diz: "Júlio Pinto, sempre irônico e
chocarreiro, debicou-o: -Você, seu John nem parece dinamarques e fabricante de
malas! Pensei que soubesse seu ofício. Um automóvel é uma mala de rodas." Desse
trecho das memórias de Gustavo Barroso, vemos que se refere ao "velho" John
Petter Bernard, quando ele tinha apenas 43 anos de idade. Quanto à
nacionalidade, já indicamos ter nascido em Rotterdam, Holanda.
2. O
pioneirismo de Petter Bernard como instalador da Empreza Telephonica do Ceará,
em 1891, pode ter levado o historiador Raimundo Menezes ("Coisas que o Tempo
Levou - Crônicas Históricas de Fortaleza Antiga; São Paulo, 1977), a cometer uma
associação equivocada de dois fatos históricos. No livro, refere-se à primeira
transmissão telefônica entre dois pontos, ocorrida em Fortaleza no dia 11 de
fevereiro de 1883, entre a loja "Casa Confúcio", de Confúcio Pamplona,
localizada na rua da Palma (atual Major Facundo),nº59, e a residência de José
Joaquim Faria, no Largo da Alfândega (hoje, praça Almirante Saldanha). Conquanto
o historiador Barão de Studart refira-se à essa comunicação telefônica de 1883,
sem qualquer alusão ao holandês, Raimundo Menezes acrescenta: "O instalador e
técnico-amador de toda aquela engrenagem complicadíssima e inverossímil para a
época, e que fora o holandes John Petter Bernard, andava azafamado de um lado
para outro, dando as últimas demãos para que nada faltasse." Se verdadeiro fosse
esse fato, Petter Bernard teria, à época, 17 anos de idade. Quanto ao registro
do Dr. Guilherme Studart, no livro "Datas e Factos para a História do Ceará"
(Fortaleza, Typographia Studart, 1896), 2º volume, é o seguinte: "1883 - 11 de
fevereiro - Inaugura-se a primeira linha telephonica ficando assentada entre o
estabelecimento comercial de Confúcio Pamplona à rua do Major Facundonº59 e a
casa de José Joaquim de Farias no largo d'Alfandega".
3. John Petter
Bernard e Maria de Lima Mendonça tiveram os seguintes filhos: William Edson
Bernard (1º de abril de 1893), John Felippe Bernard (1º de maio de 1894),
Antonio Humberto Bernard (1º de julho de 1895), Elizabeth Petter Bernard (17 de
março de 1899), Mário Petter Bernard (22 de novembro de 1900) e Olga Petter
Bernard (21 de março de 1910).
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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR] Capítulo do livro -
"FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume I, 1891-1931], de ARY
BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza, Ceará,
Brasil]
OS PIONEIROS:

2. VICTOR DI MAIO
Victor ou Vittorio Di Maio, nasceu em Nápoles,
a 14 de abril de 1852, veio para o Brasil integrando-se por toda a vida às
atividades cinematográficas. Não se tem dados muito precisos sobre sua vinda
para o Brasil, mas, um artigo de Alex Viany oferece alguns esclarecimentos:
"Há muitas noticias contraditórias a seu respeito, mas é bem possível que
tivesse chegado ao Rio de Janeiro em 1891, trazendo uma lanterna mágica ou algum
aparelho congênere, que instalou na Rua do Ouvidor, perto da Rua Uruguaiana.
Conferindo as declarações dêsse pioneiro com as pesquisas de Ademar Gonzaga,
vemos que, a certa altura, ele deve ter trocado a lanterna mágica por um
primitivo aparelho de projeções animadas, talvez o mesmo que fez as primeiras
projeções cinematográficas entre nós, em julho de 1896. Para isso, Vittorio di
Maio provavelmente realizou uma viagem à Europa, em 1894, retornando em
1896." Temos que Di Maio seja o pioneiro inconteste do cinema exibidor no
Brasil, com o seu Omniógrafo, instalado a 8 de julho de l896, na rua do Ouvidor
nº 57, no Rio de Janeiro. O reconhecimento desse pionerismo lhe foi tributado em
l986, por várias entidades como a Embrafilme, a Secretaria Municipal de Cultura
do Rio de Janeiro, a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Cinemateca do Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro e o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, com
a realização de um seminário e um cartão-postal comemorativo dos 90 anos da
primeira exibição de cinema no Brasil. Dessa iniciativa pioneira, diz Salvyano
Cavalcanti de Paiva: "Ao que tudo indica, o verdadeiro lançador do cinema do
Rio de Janeiro, foi um italiano, Vittorio di Maio, que a 8 de julho de l896, às
2 horas da tarde, ainda na Rua do Ouvidor nº 57, apresentou pela primeira vez um
espetáculo público de cinema com a máquina dos irmãos Lumiére, a mesma máquina
original de grifa e sem cruz de malta que Marc Ferrez importaria para vender nos
anos seguintes. Como era moda, na ocasião, não foi na condição de cinematógrafo
que o sr. Di Maio, apresentou o seu espetáculo, mas com o estranho nome de
Omniógrapho. Contudo, jornais da época, inclusive "O País", onde Artur Azevedo
pontificava e logo se insinuou como o primeiro crítico de cinema brasileiro de
cinema, ao noticiarem o acontecimento estabeleceram de pronto a identidade da
máquina: era o cinema de Lumiére." DiMaio foi um apaixonado criador de
cinema, nas suas peregrinações pelo Brasil, fazendo-se presente com o
cinematógrafo em vários Estados como o Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia e
Ceará , terra que escolheu para fixar residência e onde findou seus dias. Na
capital paulista, Victor Di Maio instalou um cinematógrafo, em 1899, o Salão New
York, localizado na rua l5 de novembro, ao lado do jornal "O Estado de São
Paulo". Seguem-se outros empreendimentos de cinema, nessa mesma cidade, com o
pioneiro Di Maio instalando em 1900, o Salão Paris, à rua de São Bento, 77; em
1901, o Biógrafo Americano ou Biógrafo DiMaio, no Eldorado Paulista; e no
período 1901/1902, o salão Paulicéa Phantástica, a rua do Rosário nº5. Vicente
de Paula Araújo, no livro "Salões, Circos e Cinemas de São Paulo" (S. Paulo,
Perspectiva, 1981), nos dá conta que o jornal "O Comércio" (14.3.1902) diz que
DiMaio se encontrava na Europa : "De Paris escreve-nos o Sr. Vitor de Maio
anunciando o seu breve regresso a esta Capital, onde exibirá o
Phono-Cynematographo, a última novidade de Edison, isto é, reprodução de cenas
animadas, combinadas a um grande phonographo automático." é quase certo
também que Victor Di Maio foi o primeiro a realizar filmagens no Brasil,
retificando-se uma primazia atribuida a Alfonso Segreto. Pelo que hoje se
recuperou da memória da filmografia brasileira, na pesquisa patrocinada pela
Cinemateca Brasileira, dele seriam "Bailado de Criança no Andaraí" e "Chegada de
Trem em Pretrópolis", duas películas constantes no programa, em 1897, no Cassino
Fluminense de Petrópolis. Alex Viany, referindo-se ao "mistério DiMaio", diz que
Ademar Gonzaga "descobriu um fato deveras intrigante na carreira de Vittorio
di Maio, que passou grande parte de sua vida a viajar pelo Brasil, como exibidor
ambulante, havendo também fundado o primeiro (ou segundo) cinema da capital de
São Paulo e uma porção de outros do Rio Grande do Sul ao Ceará, onde chegou em
1907. Assim é que Gonzaga vai localizá-lo, em 1897, na cidade fluminense de
Petrópolis, exibindo seu cinematógrafo no Cassino Fluminense. Do programa, além
de alguns clássicos de produtores como Lumiére e Edison, constavam duas vistas
intituladas "Chegada de trem em Petrópolis" e "Bailado de Crianças no Colégio no
Andaraí"... Portanto, fica o mistério. Teria Vittorio di Maio realmente filmado
uma chegada de trem a Petrópolis, ou limitou-se a exibir a obra de algum
desconhecido pioneiro?" Victor Di Maio chegou a Fortaleza, pela primeira
vez, em setembro de 1907, com a Empreza Camões e Di Maio, que se apresentou no
Teatrinho João Caetano a partir do dia 19. Por aqui permaneceu até fevereiro de
1908, quando pôs à venda o seu "cinematographo", fabricado por Pathé Fréres,
anunciando sua viagem a Europa. O projetor foi provavelmente adquirido pelo
empresário Júlio Pinto, que se tornaria outro pioneiro de nosso cinema exibidor.
Em abril de 1908, o "Jornal do Ceará" publicava uma carta que Di Maio enviara de
Paris prometendo "dever achar-se em breve nesta capital, onde pretende fundar
uma casa de diversões e recreio para as famílias". A promessa foi cumprida
no dia 26 de agosto de 1908 quando Victor Di Maio inaugurou o primeiro cinema
fixo de Fortaleza, o "Cinematographo Art-Nouveau", que posteriormente foi
popularizado com os nomes de "Cinema Di Maio" e "Cinema Cearense". Ressalvados
alguns períodos em que o pioneiro ausentou-se da cidade, o Cinematographo
Art-Nouveau manteve-se em pleno funcionamento até pelo menos 10 de outubro de
1914. No período mais longo de desativação do cinema, entre 1911 e junho de
1912, registramos o fato de a 3 de junho de 1911, o incansável Victor di Maio,
ter criado o primeiro cinema do sul do Ceará, o Cinema Paraíso, na cidade de
Crato. Se Di Maio deixou a nossa cidade em fins de 1914, só temos notícia de seu
retorno onze anos depois. O relato publicado no "Correio do Ceará", edição de 13
de abril de 1926, revela o regresso e a situação dramática em que se encontrava
o querido empresário dos primeiros tempos do cinema:
VICTOR DI
MAIO
Ha cerca de um mez, encontra-se nesta capital o pobre
velhinho Victor di Maio, em triste situação de pobreza e quasi cego. é um
symbolo que lembra alguns momentos de delicia por que passou a nossa capital
alguns annos passados. Victor di Maio foi o introductor do cinema no Ceará e já
antes elle o fôra no próprio Rio, onde fez fortuna e amizades, que não duraram
mais do que a sua riqueza, que o infortunio levaria imprevistamente. Hoje, cego,
pobre e quasi sem amparo, os momentos de alegria que ao público já proporcionou
autorizam-lhe a pedir protecão, para sua infelicidade. E assim é que, no
Moderno, por estes dias, será levado esplendido "film" em benefício desta
velhice desventurada, pela pobresa e mais ainda pela cegueira. O publico deve,
pois, acorrer ao beneficio, para amparar um gesto de generosidade do empresario
do Moderno e assistir ao mesmo tempo um "film" colossal de William Farnum. O
mesmo periódico, no sábado, 17 de abril, faz novo apelos à população para que
prestigiasse a sessão especial no Moderno, que exibiria o filme O Seu Maior
Sacrifício (His Greatest Sacrifice; Fox Film Corp., 1921, 6 rolos, direção de J.
Gordon Edwards, apresentação de William Fox, cenário de Paul H. Sloane, com
William Farnum, Alice Fleming, Lorene Volare, Evelyn Greely, Frank Goldsmith,
Charles Wellesley, Edith MacAlpin Benrimo e Henri Leone). Apelos que ressaltavam
a triste situação do pioneiro do cinema exibidor no Brasil:
VICTOR DI
MAIO
É hoje o dia em que será levado à tela do "Moderno" o
assombroso film "O Seu Maior Sacrifício", produção do genial actor William
Farnum. Será uma sessão extraordinária e de muito brilho e luxo, em benefício de
Victor di Maio, que espera dos bons cearenses, da grandeza d'alma de cada
fortalezense, o amigo amparo à sua desventurada velhice, pobre e aggravada pela
cegueira.
CINEMAS
Moderno - Hoje às 7 1/2 Benefício de
Victor Di Maio, o introductor do cinema no Brasil, em 1894. "O Seu Maior
Sacrifício" - 7 actos da "Fox", com William Farnum. (Correio do Ceará
-Anúncio,17.4.26).
Apenas quatro dias após a sessão em seu benefício, na
quarta-feira, 21 de abril de 1926, uma infausta notícia: morreu Victor Di Maio.
E por estranha fatalidade, a morte ocorrera no salão do Café Art-Nouveau, o
mesmo prédio onde instalara o primeiro cinema fixo de Fortaleza: o
Cinematographo Art-Nouveau. O "Correio do Ceará" (21.4.26), registra assim a
triste notícia:
FALLECE, NUM CAFÉ, O INTRODUCTOR DO CINEMATOGRAPHO NO
BRASIL
Hoje, cerca das 11 horas, falleceu, no Café Art-Nouveau, o
velhinho Victor Di Maio, introductor do cinematographo no Brasil. Ironia da
sorte! No mesmo local onde, muitos annos atraz, montara o Cinema Di Maio, onde
fizera quasi a sua fortuna, veiu a fallecer, pobre e cego. Ainda dias atraz, a
generosidade do sr. Luiz S. Ribeiro trouxera ao pobre velhinho um pouco de
lenitivo, cedendo-lhe o Moderno para a exhibição de um film, o qual foi
assistido por um grande numero de pessoas. Victimou-o uma syncope cardiaca,
tendo o dr. Cesar Rossas e um seu collega procurado, embalde, salvar-lhe a vida.
Na edição do periódico "O Ceará", do dia 22 de abril, em primeira página, o
renomado jornalista Demócrito Rocha, presta sua emocionada homenagem a Victor Di
Maio, na matéria que recolhemos para documentação do último momento de um
heróico pioneiro:
NOTAS DO DIA
O espírito de aventura
trouxe, um dia, às terras do Brasil, o italiano Vito Di Maio. Abandonado,
talvez, repassado de saudades, os campos de sua aldeia natal cobertos de flores,
os paes lacrimosos, os amigos de sua adolescencia, todo o espetáculo da
natureza, que o cercava desde a infância, lá se veio embriagado de esperanças,
para o vasto país acostumado a receber, de braços abertos, os forasteiros e a
cobrí-los das riquezas inexauríveis da sua gleba abençoada. A luta pela vida, o
anseio de ganhar dinheiro e, quem sabe, o oculto desejo de volver, um dia, à
pátria distante, amenizavam os seus momentos de nostalgia e confortavam a
lembrança dolorida da família e da nesga da terra italiana em que seus olhos
viram, pela primeira vez, a luz do dia. A sorte lhe sorriu. A terra fecunda de
Santa Cruz proporcionou-lhe generosa compensação ao seu trabalho ingente. Fôra
ele o primeiro que ensaiou, no Brasil, um aparelho cinematográfico. Nesta mesma
terra, Vito Di Maio fundou e explorou, por alguns anos, uma casa de cinema. Era
o cinema que tomou o seu nome, naquele angulo da Praça do Ferreira, onde se
encontram estabelecidos, atualmente, o café" Art Nouveau" e a Loja Mário Campos.
Mais tarde, surgiu a competência no seu ramo de comércio. Outros cinemas se
fundaram, corrigindo as lacunas do primeiro. Melhoravam os salões, as cadeiras,
a luz, a orquestra. Vito Di Maio, já no declínio da vida, sentindo fugir-lhe a
visão, que se apagou de todo, plangia, todas as noites, as mesmas valsas
dolentes da sua caixa de música, em que o zabumba ribombava, no meio do pranto
dos violinos, desvairadas imprecações de desespero. Era o começo do fim. Seus
preços baixavam. Suas películas repetiam-se e pioravam. O público o abandonava.
O velho lutador passou a dividir o prédio, alugando-lhe uma parte e reduzindo,
cada vez mais, o espaço ocupado pelo cinema. Desfalecido ante os contratempos,
Vito di Maio se partiu do Ceará na ilusão de que ainda lhe restariam energias
para trabalhar longe da terra em que lhe sobrevieram os primeiros revezes. Onde
quer, porém, que chegasse, já lhe haviam tomado o passo. Eram forças novas e
audazes que se congregavam para ganhar dinheiro e asfixiar a tentativa daqueles
que, à maneira de Vito di Maio, não dispunham de recursos para o combate. De
queda em queda, desmoronou-se o castelo dos seus sonhos. Não lhe passava mais,
pela memória, a lembrança da pátria. Perdera todos os seus, restando-lhe um
filho menor, íntimo amigo transformado em guia de sua marcha de cego e pobre, em
contato com a miséria. Há poucos dias, os jornais registraram a volta de Vito
DiMaio, ao Ceará. Vinha, no último quartel da vida, em peregrinação pelas
capitaes do Norte, trazendo uma película que os abastados empresários dos
cinemas faziam projetar, na tela, em seu benefício. Di Maio apelou para os seus
conhecidos. Que fossem todos assistir a sua fita passada em favor do
"introductor do cinema no Brasil". E, realmente, todos foram. A casa esteve à
cunha. Ontem, às 11 horas da manhã, o pobre velhinho, tateando, ao lado do
filho, servia-se de uma chícara de café‚ no "Art-Nouveau". Estava no mesmo salão
do seu antigo cinema. De repente, caiu. Estava morto. A película trazida por
Vito di Maio agradou geralmente e era "O Maior Sacrifício". Uma profunda emoção
sentimos na hora em que, atraidos pelo ajuntamento de populares, fomos encontrar
o ancião estendido sobre tres cadeiras. Quando os médicos lhe desabotoaram a
camisa, tentando reimpulsionar o coração, vimos sobre o peito descarnado do
velhinho, várias medalhas de santos e um escapulário. Estava morto. Tinha a boca
aberta, os olhos fechados e duas lágrimas na face. Era "o maior sacrifício".
D.R.
Há uma dívida especial de nossa terra ao combativo pioneiro. Um emigrante que deu sua contribuição ao desenvolvimento de Fortaleza, implantando aqui o primeiro salão permanente para as surpreendentes projeções de uma nova arte. Uma personalidade que mereceria de Fortaleza a homenagem definitiva: seu nome perpetuado em uma instituição cultural, um empreendimento no campo do cinema, ou, por que não, dado a uma rua! Nas páginas da história de Fortaleza, contudo, Victor Di Maio conquistou seu lugar e o ocupa com reconhecidos méritos.
[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a
grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou
publicadas.]
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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do
livro - "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume I, 1891-1931],
de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza,
Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS :

3. JÚLIO PINTO
Ao musicólogo Aloysio de Alencar Pinto
A cidadade de Fortaleza preserva em sua memória,
dentre os empresários de talento e dinamismo, aquele a quem em nosso trabalho é
freqùentemente citado como Major Júlio Pinto, com o título de "Major" da Guarda
Nacional que a população e a imprensa de sua época costumavam citar. Sua
personalidade e sua história transcendem, pela evidência de suas atividades e
realizações, ao capítulo pelo qual abordamos - como pioneiro do cinema exibidor,
um momento apenas da vida empresarial desse cearense de Icó, nascido a 1º de
janeiro de 1878. Descendendo de família tradicional e atuante na vida política
do Ceará, seria muito mais pelo seu espírito empreendedor que construiria seu
conceito pessoal na sociedade. Seu pai, Benjamin Pinto do Carmo, era de uma das
antigas famílias de Icó, e sua mãe, Josefa Pinto do Carmo, provinha de uma
família de Aracati, na época uma cidade próspera com grandes sobrados de
azulejo, o primeiro porto que servia de embarque para as matérias primas do
Estado. A família indicava-lhe o caminho profissional, e seu irmão mais velho, o
coronel José Pinto do Carmo, tornou-se um comerciante e industrial próspero do
setor têxtil, edificando seu grande poder em Fortaleza e Baturité, onde também
manteve um cinema. Júlio Pinto, vindo muito jovem para Fortaleza, por sua
criatividade, seria reconhecido pela variedade de seus empreendimentos e por seu
espírito pioneiro. Trajetória empresarial começada pela atividade humilde, como
empregado de uma movelaria, exercendo a função de "caixeiro-vassoura", isto é,
de empregado simples que tinha como uma de suas obrigações varrer o
estabelecimento comercial, um começo árduo que lhe serviria de escola para a
idealização e construção de seu próprio negócio. Em 1895, quando tinha 17 anos
de idade, já o encontramos com firma constituída, Júlio Pinto & Cia. -
Importadores, instalada à rua Formosa, 59, especializando-se no comércio de
"móveis, quinquilharia e artigos de uso doméstico" (A República, 12.6.1895),
sendo um distribuidor de mobílias austríacas. Aos 22 anos, em 1900, revelava-se
como industrial à frente da primeira fábrica de mosaicos do Ceará, a Plástica
Cearense, para a qual importara uma prensa da Alemanha e iria produzir um
produto de qualidade excepcional, Medalha de Ouro na Exposição Industrial do Rio
de Janeiro (1908). Esta seria, provavelmente, a primeira indústria cearense a
receber um Prêmio de Qualidade. Como industrial foi ainda proprietário de
fábricas de sabão e de prego, o que nos embates e inimizades políticas da época,
pelo fato de sua ligação familiar ao Presidente Antonio Pinto Nogueira Acioly,
que exercia o poder político desde 1896, permitia à irreverência do jornalista
João Brígido tratá-lo jocosamente por Júlio "Prego". Júlio Pinto constituiria
família, consorciando-se com Júlia La Franca Alencar, filha do mais conceituado
cirurgião do nordeste em sua época, o Dr. Meton Alfran de Alencar, condecorado
por sua atuação na Guerra do Paraguai, onde fora o primeiro a fazer transfusão
de sangue, por via direta, em pleno campo de batalha. O casal teria nove filhos
homens: Milton, Carlos, Renato, Fernando, Júlio, Benjamin, Aloysio, Danilo e
Raimundo. A preocupação com a formação dos filhos determinaria que Renato, Júlio
e Fernando, fossem alunos internos no Colégio São Vicente de Paula, no Rio de
Janeiro, e cursassem a Academia de Comércio de Juiz de Fora, a primeira no
Brasil, que antecedeu à criação dos cursos de contabilidade mercantil.
Excetuando o filho Carlos, que deveria formar-se engenheiro agrônomo no Rio de
Janeiro, os filhos mais velhos foram também auxiliares do pai, quando de seu
empreendimento cinematográfico. Meton cuidava da organização, das 'taboletas' e
decoração do cinema; Renato e Fernando, atuaram na bilheteria; e Júlio foi um de
nossos precursores projecionistas. Seguiram depois atividades industriais, a
exemplo de Fernando, que fabricou a primeira máquina de lavar roupa no Brasil, a
Londomatic, chegando a ocupar o cargo de diretor-Presidente da Westinghouse do
Brasil. Dos filhos ainda vivos, Aloysio de Alencar Pinto dedicou-se à música, pianista
renomado, hoje radicado no Rio de Janeiro, cidade a que está ligado pela
participação na história dos movimentos culturais, e Raimundo Pinto, que
permanece em Fortaleza à frente de suas atividades comerciais. Os
empreendimentos de Júlio Pinto incluíram o arrendamento do Pavilhão Caio Prado,
local de referência da vida social, no histórico Passeio Público, e que foi
cenário da apresentação do Fonógrafo de Edison, em 1891, pelo pioneiro Frederico
Figner. Em 1905, o arrendamento do Pavilhão foi renovado por 9 anos, mas, quando
da revolução de 1912, movimento político que iria depor o Presidente do Estado
Nogueira Acioly, o histórico logradouro seria destruído e incendiado. Outra
realização comercial de grande importância, a que assumiu Júlio Pinto, foi a
manutenção do estabelecimento conhecido como Casa Palhabote, e por ele adquirido
após a morte, no dia 31 de agosto de 1904, do português Antonio Dias Pinheiro, o
"Palhabote". As atividades comerciais, no amplo prédio de oito portas de frente,
à rua major Facundo, nº 64, com fundos correspondentes à rua Barão do Rio
Branco, nº 57, passaram a ser exercidas sob o nome de Cassino Cearense,
constituindo-se um complexo de atividades que incluía fábrica de gêlo,
tabacaria, salão de bilhares, bar, e a partir de 1909, um cinema. O ingresso de
Júlio Pinto no setor de cinema, ocorreria quando patrocinou a instalação com o
nome de Cassino Cearense, a 1º de junho de 1909, do cinema da firma Empreza
Carvalho & Ltda., que anunciava seu equipamento "Stereopticon", responsável
por uma programação de excelente qualidade. Após a temporada do Stereopticon,
logo a seguir, no dia 18 de setembro de 1909, é definitivamente inaugurado o
Cinema Júlio Pinto, cuja divulgação publicitária alterna-se com a denominação de
Cassino Cearense. Ao ato inaugural tinha-se o prestígio da presença do
Presidente Dr. Nogueira Acioly e autoridades do Estado. Júlio Pinto importou, em
1910, de Paris, um Chronophone Gaumont, com o qual lançaria também o "cinema
falante", com as mais recentes produções "sonorizadas" pelo sistema acoplado do
fonógrafo. O Cinema Júlio Pinto, passou pelas tentativas de "trust" exibidor em
Fortaleza, em 1913, e em 1916, ocasião em que o Cassino Cearense, e os cinemas
American Cinema e Riche, seriam fechados e compensados por percentual de
faturamento dos cinemas remanescentes. Mesmo após a morte de Júlio Pinto, no dia
4 de dezembro de 1916, o Cassino Cearense é reativado, e temos registro de sua
atividade pelo menos até março de 1920. Associado ao dr. Meton de Alencar, na
firma Empresa Auto Transporte, coube a Júlio Pinto fazer chegar a Fortaleza, no
dia 28 de março de 1909, o seu primeiro automóvel, um veículo de marca Rembler,
seguindo-se outros carros: um automóvel e um caminhão da fábrica francesa De
Dion Bouton, e dois pequenos carros italianos da marca Piccolo. Após o
falecimento de Júlio Pinto, quando o seu cinema encontrava-se fechado pelo
acordo do citado "trust", a Ceará Light determinou, no dia 5 de janeiro de 1917,
o corte de energia do Cassino Cearense, sob a alegação de que a desativação do
cinema retirava-lhe o direito de consumo, medida que iria causar danos
irrecuperáveis às demais atividades desse complexo industrial e comercial. O
fato determinou uma questão judicial pelos prejuíizos da paralização da fábrica
de gêlo, e outras atividades comerciais, quando o brilhante advogado Raimundo
Gomes de Matos obteve uma inédita indenização em favor da viúva e seus oito
filhos menores, e reuniu nos autos do processo expressivos depoimentos sobre a
importância desse empreendimento de Júlio Pinto. No processo, outro pioneiro de
cinema no Ceará, Henrique Mesiano, ao testemunhar que o "Cassino Cearense" era
um estabelecimento muito conceituado e muito freqüentado pelo público de
Fortaleza, explicou a natureza do "trust" de cinema dizendo "que a testemunha,
José Rola, a viúva e herdeiros de Júlio Pinto, têm uma combinação com Luiz
Severiano Ribeiro para não explorarem cinema." O desaparecimento de Júlio Pinto,
no dia 4 de dezembro de 1916, ocupou o destaque na imprensa. "Unitário"
(5.12.1916) assim registrou seu falecimento: Júlio Pinto Uma terrível
fatalidade está pesando sobre a Fortaleza. Há dias, Atropos, accesa em furia,
corta, desapiedada, nas existencias, não poupando as mais preciosas. Dentro de
algumas semanas, impiedosa, fez baixar ao tumulo Geminiano Maia, Castelar
Sombra, Paulino Barroso, Agapito, Maurício Pires, José Pio e chegou hontem a vez
de Júlio Pinto! Não foi uma morte, a morte desse conterrâneo, mas uma desgraça
rematada. Era arrimo de uma familia numerosa e vergava ao trabalho, noite e dia,
para, com modesta limpeza e certo conforto, tantos viverem do seu suor, ora no
afan de uma industria, ora no de outras, acreditando attingir um dia de
descanço. Mallogrou-se, porém, o seu empenho. Hontem se divulgou, pela manhã,
que estava soffrendo gravemente de um anthrax e, á tarde, a terra que tanto nos
cria como soe consumir, recebia os seus restos mortaes - oh! cura hominum
quantum es in rebus inane! Agora resta chorando, com a esposa angelica, um
rancho numeroso de crianças, que tudo perderam, perdendo um pae dilligente. às
famílias Pinto e Meton enviamos os nossos profundos pesames.
O exemplo de Júlio
Pinto, no seu interesse pelo cinema, a partir do primeiro projetor adquirido ao
amigo Victor Di Maio, produziu expressivas manifestações de seus descendentes em
favor da sétima arte. Dois exemplos são o trabalho do maestro Aloysio de Alencar
Pinto, que se dedicou à atividade artística e, até hoje, é um pesquisador e
divulgador da música e do cinema, e de Fernando Pinto, a quem se ligou Orson
Welles, em 1942, na sua aventura cearense, hoje resgatada pela montagem do filme
inacabado sobre a odisséia dos jangadeiros, "Tudo é Verdade" (It's All True),
visto em pré-estréia pelos cearenses no Cine Fortaleza, na noite de 14 de
setembro de 1994.
[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a
grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou
publicadas.]
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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do
livro - "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume I, 1891-1931],
de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza,
Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS:

[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a
grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou
publicadas.]
NÓTULAS SOBRE ROBERTO MURATORI
1.
Roberto Muratori tinha sua "oficina de relojoeiro" instalada na rua Major
Facundo, nº 73, podendo-se classificar como comerciante. Vemos, entretanto, em
documento da comunidade cearense, datado de 15 de abril de 1904, em defesa de
Rodolpho Theophilo e sua campanha pela vacinação gratuita, que Roberto e
Domingos Muratori são identificados como "artistas", e o velho Carlos Mesiano,
como "negociante". Sobre a morte de Carlos Mesiano, encontramos em "Unitário",
de domingo, 31 de dezembro de 1916: "Carlos Mesiano - Falleceu hontem, nesta
capital, o joalheiro, proprietário e capitalista, Carlos Mesiano, italiano de
nacionalidade. Deixou soffrivel fortuna, mulher e filhos, todos estes de bem
acabada educação. Nossos pezames à digna esposa e mais familiares."
2. A
chegada do primeiro automóvel ao Ceará, no dia 28 de março de 1909, mereceu
várias narrativas. Raimundo Menezes ("Coisas que o tempo levou...- Crônicas
Históricas de Fortaleza"; São Paulo, 1977) diz: "Foi um acontecimento
surpreendente aquele da notícia da chegada a Fortaleza, vindo dos Estados
Unidos, pelo vapor inglês "Cearense", de um automóvel, já usado, comprado, em
segunda mão, pela Empresa Auto Transporte, do Dr. Meton de Alencar e de Júlio
Pinto, proprietários do "Cassino Cearense", a qual adquirira pela importância de
Rs. 8:000$000. Era o veículo em apreço de marca americana, produto da fábrica
"Rembler" e de fabricação assaz primitiva... Pela empresa compradora, John Peter
Bernard acompanhava o carro, que foi recolhido ao "Palhabote", onde Roberto
Muratori e o velho Dr. Meireles passaram a estudar-lhe o motor, procurando, com
esforços inauditos, fazê-lo funcionar o que coneguiram, dias depois, dando-se a
experiência, mais ou menos, pelas 10 horas da noite. O "Rembler" movimentou-se
vagarosamente, alguns metros, pela rua, guiado pelo português Rafael Dias
Marques, caixeiro da "Casa Bordalo", e estancou adiante e não houve forças
humanas que o fizessem andar..." Gustavo Barroso ("Consulado da China", Rio de
Janeiro, Editora Getúlio Costa, s/d), é impreciso quanto a marca do primeiro
automóvel: "Júlio Pinto, dono da Casa Palhabote e espírito empreendedor,
comprou-o em segunda mão, no Recife. Marca Pic-Pic, tinha não sei quantas
manivelas externas de freio, mudanças de velocidade e marcha ré." Otacílio
Azevedo (Fortaleza Descalça -Reminiscências; Fortaleza, Edições UFC, 1980),
equivoca-se quanto ao ano: "Foi Júlio Pinto que fez chegar a Fortaleza o
primeiro automóvel, em 1912". Há, enfim, o registro com a confiabilidade do
médico, ensaista, diplomata e grande historiador Guilherme Studart, o Barão de
Studart (nascido em Fortaleza, a 5.1.1856; falecido a 25.9.1938), em sua obra
"Datas e Factos para a História do Ceará" (Fortaleza, Tipografia Comercial,
1924): "1909 - 28 de março: Primeira experiencia no automóvel importado pela
Empreza Auto Transporte Cearense e chegado à Fortaleza a 26 a bordo do vapor
inglez Cearense. Os introductores deste melhoramento foram o Dr.Meton de Alencar
e o negociante Júlio Pinto." Aloysio de Alencar Pinto, filho do Major Júlio Pinto, disse-me
em entrevista que seu pai adquiriu, logo após o Rambler, outro dois carros.
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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do
livro – "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA – Volume I, 1891-1931],
de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 – 60.170-320 – Fortaleza,
Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS:

NÓTULAS SOBRE HENRIQUE MESIANO
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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do
livro – "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA – Volume I, 1891-1931],
de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 – 60.170-320 – Fortaleza,
Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS:

SOBRE JOSÉ DE OLIVEIRA ROLA
1. A Maison Art-Nouveau, com novas
instalações, foi inaugurada a 8 de dezembro de 1907. Sôbre a inauguração,
publica o "Jornal do Ceará" (7.12.07) : "Maison Art-Nouveau. - O sr. José
d’Oliveira Rola, sócio gerente da "Maison Art-Nouveau", veio à redação
convidar-nos a assistirmos, amanhã, às 8 horas do dia, à inauguração dos novos e
vastos salões do conhecido estabelecimento. Agradecido." O jornal "Unitário"
(10.12.07) comenta essa inauguração: "Maison-Art-Nouveau - Ante-ontem, domingo,
teve lugar à inauguração da Maison Art-Nouveau, presente grande número de
pessoas, para cujo ato recebemos o convite do snr. José d’Oliveira Rôla, sócio
gerente da mesma. Durante todo o dia esteve repleta de visitantes, entre os
quais cavalheiros e senhoras da melhor sociedade. Foi extraordinário o movimento
da casa, que só se fechou às 12 horas da noite".
2. O sociólogo Abelardo
Fernando Montenegro dedica um capítulo do seu livro "A Praça do Ferreira -
Tentativa de interpretação do Ceará-Moleque" (Fortaleza, Editora S. Batista
Fontenele, 1959), à memória de José de Oliveira Rola. O consagrado intelectual
cearense afirmou-nos, em entrevista, ter tido a maior convivência possível com
ele, não apenas morando na mesma casa, mas dormindo no mesmo quarto que ele e
trabalhando igualmente no seu escritório. Isto porque tendo falecido seu avô
materno e sua mãe, a tia-avó materna, Semiramis de Oliveira Rola, convidou sua
avó e ele para viverem em sua casa. Abelardo Montenegro, nascido em Crateús, a
30 de maio de 1912, foi advogado, promotor de justiça, professor concursado da
Universidade Federal do Ceará, jornalista, escritor e sociólogo. Dentre seus
trabalhos publicados, destacamos: "O Romance Cearense", "Antonio Conselheiro",
"Soriano de Albuquerque, um pioneiro da Sociologia no Brasil", "História do
Cangaceirismo no Ceará", "Os Partidos Políticos do Ceará" e "Ceará - Tentativa
de Interpretação".
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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do
livro – "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA – Volume I, 1891-1931],
de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 – 60.170-320 – Fortaleza,
Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS:

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