[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]

Capítulo do livro - "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza, Ceará, Brasil]

OS PIONEIROS


1. JOHN PETTER BERNARD

À Senhora Maria Lúcia Maciel - em memória, neta de John Petter Bernard.

Natural de Rotterdam, Holanda, onde nasceu a 24 de julho de 1866, John Petter Bernard, integra-se à vida de Fortaleza, a partir de 1891, quando aqui chega para instalar a Empresa Telephonica do Ceará, iniciativa do talento empresarial de Confúcio Pamplona. Fez-se cearense, casou e constituiu família, contribuindo ainda com sua capacidade empreendedora para o desenvolvimento da terra de adoção. John Petter, cujo nome de batismo Johannus Petrus denota a origem católica, já que os holandeses dessa cren¸a adotavam nomes latinos, logo que chegou, talvez por volta de 1890, conheceu a jovem Maria de Lima Mendonça, a quem de imediato propôs casamento. A moça sugeriu-lhe que tendo uma irmã solteira, mais idosa, esta é quem deveria ser escolhida. Insistindo em sua paixão à primeira vista, o jovem holandês aceitou como condi¸ão para o casamento ficar morando com a sogra e a cunhada, na residência da rua Major Facundo (antiga rua do Fogo),nº645, meio quarteirão para a Praça do Ferreira; local onde hoje existe a firma Molduras O Epitácio. O casamento se deu a 15 de junho de 1892, ele com 26 e ela com 18 anos. O casal teve ao todo seis filhos. O primogênito William Edson Bernard, muito inteligente, ajudou ao pai na fábrica de malas que veio a instalar, casou-se e teve quatro filhos, todos já falecidos. Seguiram-se, João Felipe, falecido pequeno, e Antônio Humberto, que também trabalhou na fábrica do pai, casou-se e teve seis filhos, igualmente já mortos. A quarta filha, Elizabeth, foi casada com Alcides Santos, comerciante cearense, fundador da Sociedade Numismática e Filatélica Cearense e do Fortaleza Esporte Clube. Elizabeth teve seis filhos, sendo a única que lhe sobrevive, a senhora Maria Lúcia, casada com o Sr. Odorico Maciel de França. Mário Petrus, o quinto filho do casal, morreu solteiro. Foi o único filho que residiu com familiares na Holanda, para onde foi levado pelo pai, em 1910, pretendendo que ele estudasse Medicina em Rotterdam. Advindo a grande guerra, e já tendo falecido John Petter Bernard, os parentes holandeses alegaram que não havia condições para mante-lo. Regressou a Fortaleza, em 1918, tendo frustrada sua carreira de médico, mágoa que conservou sempre, pois, no Brasil teria havido um jeitinho para não prejudicá-lo. Por influencia de Alcides Santos tornou-se jogador de futebol no Fortaleza Esporte Clube, sendo o goleiro, em 1920, no 1º campeonato ganho por esse time. A sexta filha, Olga Petter, permaneceu solteira, tendo vivido com a irmã Elizabeth, e foi quem criou a sobrinha Maria Lúcia. Veio a falecer em 1990. A vida profissional do pioneiro John Petter Bernard tem seu grande momento quando inaugurou, a 10 de setembro de 1891, a Empreza Telephonica do Ceará. Naquele momento, usava a farda da guarda militar holandesa, uniforme com espada, obrigatório para ele em todos os momentos solenes e que lhe concedia muito respeito. Publicações da época dão-lhe o tratamento de Major. Responsável técnico pelo empreendimento, Petter Bernard foi detentor do telefone nº1, na condição de "Inspetor da Empreza", primazia que fazia justiça a seus méritos. Seu pioneirismo extende-se à introdução do fonógrafo e do Kinetoscope. Foi o promotor de algumas das primeiras apresentações comerciais do fonógrafo. Foi sob sua orientação técnica que a Empreza Telephonica, a 14 de julho de 1893, apresentou a " máquina mais maravilhosa do século XIX", e posteriormente foi o diretor do fonógrafo de Manoel Pereira dos Santos, no Café Central, à Praça José de Alencar (antiga praça que se localizava entre os atuais prédios da Companhia de Correios e Telégrafos e Banco do Brasil, entre as ruas Floriano Peixoto e General Bezerril). Ainda em 1893, instalava à rua da Assembléia (rua atualmente dividida pelas denominações São Paulo e Visconde de Sabóia), uma fábrica de malas que à época chamava-se "oficina de bahuleiro". Em fevereiro de 1901, transferiu sua fábrica para a antiga Praça José de Alencar, nº4. Além de fabricar malas de qualidade, sua especialidade, utilizando-se sempre de materiais importados, foi responsável pela introdução em nosso meio de cadeiras espreguiçadeiras, desconhecidas na Fortaleza do seu tempo. Enquanto viveu em Fortaleza, Petter Bernard fez várias viagens à Holanda. "A República", de 9 de abril de 1906, registra suas despedidas por estar viajando no dia seguinte para a Europa. É provável que tenha viajado novamente à Europa em 1910 e 1915, quando o filho se encontrava em Rotterdam. Membro da Maçonaria foi um dos fundadores do Asilo de Mendicidade, a 10 de setembro de 1905, em amplo prédio no Benfica, mais tarde transferido para a atual sede no bairro de Jacarecanga. A instituição hoje é denominada Lar Torres de Melo, em homenagem ao também fundador e líder maçônico José Ramos Torres de Melo. A idéia da instituição assistencial para idosos carentes teria nascido quando Petter Bernard, após a morte de seu pai, visitou uma organização similar holandesa. Na composição do Conselho do Asilo de Mendicidade, que tinha como presidente o Coronel Guilherme Moreira da Rocha, consta como um dos dirigentes o Major John Petter Bernard. Pessoa grata na sociedade cearense, holandês naturalizado brasileiro, participa em eventos diversos da cidade. No episódio da chegada do primeiro automóvel, em nossa cidade, no dia 28 de março de 1909, adquirido pela Empresa Auto Transporte, do Dr. Meton de Alencar e Major Júlio Pinto, ele aparece como representante da empresa compradora. E ao lado de outro pioneiro, Roberto Muratori, conduziu o veículo e estudou o seu motor na tentativa de fazê-lo funcionar. John Petter Bernard faleceu em Fortaleza a 24 de julho de 1917, vítima de febre repentina, meses depois de ter assistido ao casamento de sua filha Elizabeth, a 14 de abril. Um emigrante que veio para ficar e com imenso crédito de reconhecimento pelos serviços prestados à cidade de Fortaleza.

[Obs:As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou publicadas.]

NÓTULAS SOBRE JOHN PETTER BERNARD

1. A nacionalidade de John Petter Bernard é dada erroneamente em fontes diversas. O jornal "A República", em editorial de 13 de outubro de 1892, ressaltando o êxito da Empreza Telephonica, refere-se aos "auspícios técnicos do cidadão americano John Petter Bernard". Por sua vez, Gustavo Barroso, no 3º volume de suas memórias, "Consulado da China" (Rio de Janeiro, Editora Getúlio Costa, s/d), narra o passeio inaugural no primeiro carro que chegou ao Ceará: "Ao lado do condutor, ia o velho John Petter Bernard, dinamarquês e fabricante de malas. No assento trazeiro, Júlio Pinto e eu." Narra depois que o carro enguiçou, e como o motorista Rafael Dias Marques não resolvia a dificuldade, foi a vez da tentativa infrutífera de Petter Bernard. E diz: "Júlio Pinto, sempre irônico e chocarreiro, debicou-o: -Você, seu John nem parece dinamarques e fabricante de malas! Pensei que soubesse seu ofício. Um automóvel é uma mala de rodas." Desse trecho das memórias de Gustavo Barroso, vemos que se refere ao "velho" John Petter Bernard, quando ele tinha apenas 43 anos de idade. Quanto à nacionalidade, já indicamos ter nascido em Rotterdam, Holanda.

2. O pioneirismo de Petter Bernard como instalador da Empreza Telephonica do Ceará, em 1891, pode ter levado o historiador Raimundo Menezes ("Coisas que o Tempo Levou - Crônicas Históricas de Fortaleza Antiga; São Paulo, 1977), a cometer uma associação equivocada de dois fatos históricos. No livro, refere-se à primeira transmissão telefônica entre dois pontos, ocorrida em Fortaleza no dia 11 de fevereiro de 1883, entre a loja "Casa Confúcio", de Confúcio Pamplona, localizada na rua da Palma (atual Major Facundo),nº59, e a residência de José Joaquim Faria, no Largo da Alfândega (hoje, praça Almirante Saldanha). Conquanto o historiador Barão de Studart refira-se à essa comunicação telefônica de 1883, sem qualquer alusão ao holandês, Raimundo Menezes acrescenta: "O instalador e técnico-amador de toda aquela engrenagem complicadíssima e inverossímil para a época, e que fora o holandes John Petter Bernard, andava azafamado de um lado para outro, dando as últimas demãos para que nada faltasse." Se verdadeiro fosse esse fato, Petter Bernard teria, à época, 17 anos de idade. Quanto ao registro do Dr. Guilherme Studart, no livro "Datas e Factos para a História do Ceará" (Fortaleza, Typographia Studart, 1896), 2º volume, é o seguinte: "1883 - 11 de fevereiro - Inaugura-se a primeira linha telephonica ficando assentada entre o estabelecimento comercial de Confúcio Pamplona à rua do Major Facundonº59 e a casa de José Joaquim de Farias no largo d'Alfandega".

3. John Petter Bernard e Maria de Lima Mendonça tiveram os seguintes filhos: William Edson Bernard (1º de abril de 1893), John Felippe Bernard (1º de maio de 1894), Antonio Humberto Bernard (1º de julho de 1895), Elizabeth Petter Bernard (17 de março de 1899), Mário Petter Bernard (22 de novembro de 1900) e Olga Petter Bernard (21 de março de 1910).

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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR] Capítulo do livro - "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza, Ceará, Brasil]

OS PIONEIROS:


2. VICTOR DI MAIO

Victor ou Vittorio Di Maio, nasceu em Nápoles, a 14 de abril de 1852, veio para o Brasil integrando-se por toda a vida às atividades cinematográficas. Não se tem dados muito precisos sobre sua vinda para o Brasil, mas, um artigo de Alex Viany oferece alguns esclarecimentos: "Há muitas noticias contraditórias a seu respeito, mas é bem possível que tivesse chegado ao Rio de Janeiro em 1891, trazendo uma lanterna mágica ou algum aparelho congênere, que instalou na Rua do Ouvidor, perto da Rua Uruguaiana. Conferindo as declarações dêsse pioneiro com as pesquisas de Ademar Gonzaga, vemos que, a certa altura, ele deve ter trocado a lanterna mágica por um primitivo aparelho de projeções animadas, talvez o mesmo que fez as primeiras projeções cinematográficas entre nós, em julho de 1896. Para isso, Vittorio di Maio provavelmente realizou uma viagem à Europa, em 1894, retornando em 1896." Temos que Di Maio seja o pioneiro inconteste do cinema exibidor no Brasil, com o seu Omniógrafo, instalado a 8 de julho de l896, na rua do Ouvidor nº 57, no Rio de Janeiro. O reconhecimento desse pionerismo lhe foi tributado em l986, por várias entidades como a Embrafilme, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, com a realização de um seminário e um cartão-postal comemorativo dos 90 anos da primeira exibição de cinema no Brasil. Dessa iniciativa pioneira, diz Salvyano Cavalcanti de Paiva: "Ao que tudo indica, o verdadeiro lançador do cinema do Rio de Janeiro, foi um italiano, Vittorio di Maio, que a 8 de julho de l896, às 2 horas da tarde, ainda na Rua do Ouvidor nº 57, apresentou pela primeira vez um espetáculo público de cinema com a máquina dos irmãos Lumiére, a mesma máquina original de grifa e sem cruz de malta que Marc Ferrez importaria para vender nos anos seguintes. Como era moda, na ocasião, não foi na condição de cinematógrafo que o sr. Di Maio, apresentou o seu espetáculo, mas com o estranho nome de Omniógrapho. Contudo, jornais da época, inclusive "O País", onde Artur Azevedo pontificava e logo se insinuou como o primeiro crítico de cinema brasileiro de cinema, ao noticiarem o acontecimento estabeleceram de pronto a identidade da máquina: era o cinema de Lumiére." DiMaio foi um apaixonado criador de cinema, nas suas peregrinações pelo Brasil, fazendo-se presente com o cinematógrafo em vários Estados como o Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia e Ceará , terra que escolheu para fixar residência e onde findou seus dias. Na capital paulista, Victor Di Maio instalou um cinematógrafo, em 1899, o Salão New York, localizado na rua l5 de novembro, ao lado do jornal "O Estado de São Paulo". Seguem-se outros empreendimentos de cinema, nessa mesma cidade, com o pioneiro Di Maio instalando em 1900, o Salão Paris, à rua de São Bento, 77; em 1901, o Biógrafo Americano ou Biógrafo DiMaio, no Eldorado Paulista; e no período 1901/1902, o salão Paulicéa Phantástica, a rua do Rosário nº5. Vicente de Paula Araújo, no livro "Salões, Circos e Cinemas de São Paulo" (S. Paulo, Perspectiva, 1981), nos dá conta que o jornal "O Comércio" (14.3.1902) diz que DiMaio se encontrava na Europa : "De Paris escreve-nos o Sr. Vitor de Maio anunciando o seu breve regresso a esta Capital, onde exibirá o Phono-Cynematographo, a última novidade de Edison, isto é, reprodução de cenas animadas, combinadas a um grande phonographo automático." é quase certo também que Victor Di Maio foi o primeiro a realizar filmagens no Brasil, retificando-se uma primazia atribuida a Alfonso Segreto. Pelo que hoje se recuperou da memória da filmografia brasileira, na pesquisa patrocinada pela Cinemateca Brasileira, dele seriam "Bailado de Criança no Andaraí" e "Chegada de Trem em Pretrópolis", duas películas constantes no programa, em 1897, no Cassino Fluminense de Petrópolis. Alex Viany, referindo-se ao "mistério DiMaio", diz que Ademar Gonzaga "descobriu um fato deveras intrigante na carreira de Vittorio di Maio, que passou grande parte de sua vida a viajar pelo Brasil, como exibidor ambulante, havendo também fundado o primeiro (ou segundo) cinema da capital de São Paulo e uma porção de outros do Rio Grande do Sul ao Ceará, onde chegou em 1907. Assim é que Gonzaga vai localizá-lo, em 1897, na cidade fluminense de Petrópolis, exibindo seu cinematógrafo no Cassino Fluminense. Do programa, além de alguns clássicos de produtores como Lumiére e Edison, constavam duas vistas intituladas "Chegada de trem em Petrópolis" e "Bailado de Crianças no Colégio no Andaraí"... Portanto, fica o mistério. Teria Vittorio di Maio realmente filmado uma chegada de trem a Petrópolis, ou limitou-se a exibir a obra de algum desconhecido pioneiro?" Victor Di Maio chegou a Fortaleza, pela primeira vez, em setembro de 1907, com a Empreza Camões e Di Maio, que se apresentou no Teatrinho João Caetano a partir do dia 19. Por aqui permaneceu até fevereiro de 1908, quando pôs à venda o seu "cinematographo", fabricado por Pathé Fréres, anunciando sua viagem a Europa. O projetor foi provavelmente adquirido pelo empresário Júlio Pinto, que se tornaria outro pioneiro de nosso cinema exibidor. Em abril de 1908, o "Jornal do Ceará" publicava uma carta que Di Maio enviara de Paris prometendo "dever achar-se em breve nesta capital, onde pretende fundar uma casa de diversões e recreio para as famílias". A promessa foi cumprida no dia 26 de agosto de 1908 quando Victor Di Maio inaugurou o primeiro cinema fixo de Fortaleza, o "Cinematographo Art-Nouveau", que posteriormente foi popularizado com os nomes de "Cinema Di Maio" e "Cinema Cearense". Ressalvados alguns períodos em que o pioneiro ausentou-se da cidade, o Cinematographo Art-Nouveau manteve-se em pleno funcionamento até pelo menos 10 de outubro de 1914. No período mais longo de desativação do cinema, entre 1911 e junho de 1912, registramos o fato de a 3 de junho de 1911, o incansável Victor di Maio, ter criado o primeiro cinema do sul do Ceará, o Cinema Paraíso, na cidade de Crato. Se Di Maio deixou a nossa cidade em fins de 1914, só temos notícia de seu retorno onze anos depois. O relato publicado no "Correio do Ceará", edição de 13 de abril de 1926, revela o regresso e a situação dramática em que se encontrava o querido empresário dos primeiros tempos do cinema:

VICTOR DI MAIO

Ha cerca de um mez, encontra-se nesta capital o pobre velhinho Victor di Maio, em triste situação de pobreza e quasi cego. é um symbolo que lembra alguns momentos de delicia por que passou a nossa capital alguns annos passados. Victor di Maio foi o introductor do cinema no Ceará e já antes elle o fôra no próprio Rio, onde fez fortuna e amizades, que não duraram mais do que a sua riqueza, que o infortunio levaria imprevistamente. Hoje, cego, pobre e quasi sem amparo, os momentos de alegria que ao público já proporcionou autorizam-lhe a pedir protecão, para sua infelicidade. E assim é que, no Moderno, por estes dias, será levado esplendido "film" em benefício desta velhice desventurada, pela pobresa e mais ainda pela cegueira. O publico deve, pois, acorrer ao beneficio, para amparar um gesto de generosidade do empresario do Moderno e assistir ao mesmo tempo um "film" colossal de William Farnum. O mesmo periódico, no sábado, 17 de abril, faz novo apelos à população para que prestigiasse a sessão especial no Moderno, que exibiria o filme O Seu Maior Sacrifício (His Greatest Sacrifice; Fox Film Corp., 1921, 6 rolos, direção de J. Gordon Edwards, apresentação de William Fox, cenário de Paul H. Sloane, com William Farnum, Alice Fleming, Lorene Volare, Evelyn Greely, Frank Goldsmith, Charles Wellesley, Edith MacAlpin Benrimo e Henri Leone). Apelos que ressaltavam a triste situação do pioneiro do cinema exibidor no Brasil:

VICTOR DI MAIO

É hoje o dia em que será levado à tela do "Moderno" o assombroso film "O Seu Maior Sacrifício", produção do genial actor William Farnum. Será uma sessão extraordinária e de muito brilho e luxo, em benefício de Victor di Maio, que espera dos bons cearenses, da grandeza d'alma de cada fortalezense, o amigo amparo à sua desventurada velhice, pobre e aggravada pela cegueira.

CINEMAS

Moderno - Hoje às 7 1/2 Benefício de Victor Di Maio, o introductor do cinema no Brasil, em 1894. "O Seu Maior Sacrifício" - 7 actos da "Fox", com William Farnum. (Correio do Ceará -Anúncio,17.4.26).

Apenas quatro dias após a sessão em seu benefício, na quarta-feira, 21 de abril de 1926, uma infausta notícia: morreu Victor Di Maio. E por estranha fatalidade, a morte ocorrera no salão do Café Art-Nouveau, o mesmo prédio onde instalara o primeiro cinema fixo de Fortaleza: o Cinematographo Art-Nouveau. O "Correio do Ceará" (21.4.26), registra assim a triste notícia:

FALLECE, NUM CAFÉ, O INTRODUCTOR DO CINEMATOGRAPHO NO BRASIL

Hoje, cerca das 11 horas, falleceu, no Café Art-Nouveau, o velhinho Victor Di Maio, introductor do cinematographo no Brasil. Ironia da sorte! No mesmo local onde, muitos annos atraz, montara o Cinema Di Maio, onde fizera quasi a sua fortuna, veiu a fallecer, pobre e cego. Ainda dias atraz, a generosidade do sr. Luiz S. Ribeiro trouxera ao pobre velhinho um pouco de lenitivo, cedendo-lhe o Moderno para a exhibição de um film, o qual foi assistido por um grande numero de pessoas. Victimou-o uma syncope cardiaca, tendo o dr. Cesar Rossas e um seu collega procurado, embalde, salvar-lhe a vida. Na edição do periódico "O Ceará", do dia 22 de abril, em primeira página, o renomado jornalista Demócrito Rocha, presta sua emocionada homenagem a Victor Di Maio, na matéria que recolhemos para documentação do último momento de um heróico pioneiro:

NOTAS DO DIA

O espírito de aventura trouxe, um dia, às terras do Brasil, o italiano Vito Di Maio. Abandonado, talvez, repassado de saudades, os campos de sua aldeia natal cobertos de flores, os paes lacrimosos, os amigos de sua adolescencia, todo o espetáculo da natureza, que o cercava desde a infância, lá se veio embriagado de esperanças, para o vasto país acostumado a receber, de braços abertos, os forasteiros e a cobrí-los das riquezas inexauríveis da sua gleba abençoada. A luta pela vida, o anseio de ganhar dinheiro e, quem sabe, o oculto desejo de volver, um dia, à pátria distante, amenizavam os seus momentos de nostalgia e confortavam a lembrança dolorida da família e da nesga da terra italiana em que seus olhos viram, pela primeira vez, a luz do dia. A sorte lhe sorriu. A terra fecunda de Santa Cruz proporcionou-lhe generosa compensação ao seu trabalho ingente. Fôra ele o primeiro que ensaiou, no Brasil, um aparelho cinematográfico. Nesta mesma terra, Vito Di Maio fundou e explorou, por alguns anos, uma casa de cinema. Era o cinema que tomou o seu nome, naquele angulo da Praça do Ferreira, onde se encontram estabelecidos, atualmente, o café" Art Nouveau" e a Loja Mário Campos. Mais tarde, surgiu a competência no seu ramo de comércio. Outros cinemas se fundaram, corrigindo as lacunas do primeiro. Melhoravam os salões, as cadeiras, a luz, a orquestra. Vito Di Maio, já no declínio da vida, sentindo fugir-lhe a visão, que se apagou de todo, plangia, todas as noites, as mesmas valsas dolentes da sua caixa de música, em que o zabumba ribombava, no meio do pranto dos violinos, desvairadas imprecações de desespero. Era o começo do fim. Seus preços baixavam. Suas películas repetiam-se e pioravam. O público o abandonava. O velho lutador passou a dividir o prédio, alugando-lhe uma parte e reduzindo, cada vez mais, o espaço ocupado pelo cinema. Desfalecido ante os contratempos, Vito di Maio se partiu do Ceará na ilusão de que ainda lhe restariam energias para trabalhar longe da terra em que lhe sobrevieram os primeiros revezes. Onde quer, porém, que chegasse, já lhe haviam tomado o passo. Eram forças novas e audazes que se congregavam para ganhar dinheiro e asfixiar a tentativa daqueles que, à maneira de Vito di Maio, não dispunham de recursos para o combate. De queda em queda, desmoronou-se o castelo dos seus sonhos. Não lhe passava mais, pela memória, a lembrança da pátria. Perdera todos os seus, restando-lhe um filho menor, íntimo amigo transformado em guia de sua marcha de cego e pobre, em contato com a miséria. Há poucos dias, os jornais registraram a volta de Vito DiMaio, ao Ceará. Vinha, no último quartel da vida, em peregrinação pelas capitaes do Norte, trazendo uma película que os abastados empresários dos cinemas faziam projetar, na tela, em seu benefício. Di Maio apelou para os seus conhecidos. Que fossem todos assistir a sua fita passada em favor do "introductor do cinema no Brasil". E, realmente, todos foram. A casa esteve à cunha. Ontem, às 11 horas da manhã, o pobre velhinho, tateando, ao lado do filho, servia-se de uma chícara de café‚ no "Art-Nouveau". Estava no mesmo salão do seu antigo cinema. De repente, caiu. Estava morto. A película trazida por Vito di Maio agradou geralmente e era "O Maior Sacrifício". Uma profunda emoção sentimos na hora em que, atraidos pelo ajuntamento de populares, fomos encontrar o ancião estendido sobre tres cadeiras. Quando os médicos lhe desabotoaram a camisa, tentando reimpulsionar o coração, vimos sobre o peito descarnado do velhinho, várias medalhas de santos e um escapulário. Estava morto. Tinha a boca aberta, os olhos fechados e duas lágrimas na face. Era "o maior sacrifício". D.R.

Há uma dívida especial de nossa terra ao combativo pioneiro. Um emigrante que deu sua contribuição ao desenvolvimento de Fortaleza, implantando aqui o primeiro salão permanente para as surpreendentes projeções de uma nova arte. Uma personalidade que mereceria de Fortaleza a homenagem definitiva: seu nome perpetuado em uma instituição cultural, um empreendimento no campo do cinema, ou, por que não, dado a uma rua! Nas páginas da história de Fortaleza, contudo, Victor Di Maio conquistou seu lugar e o ocupa com reconhecidos méritos.

[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou publicadas.]

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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do livro - "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza, Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS :


3. JÚLIO PINTO

Ao musicólogo Aloysio de Alencar Pinto


A cidadade de Fortaleza preserva em sua memória, dentre os empresários de talento e dinamismo, aquele a quem em nosso trabalho é freqùentemente citado como Major Júlio Pinto, com o título de "Major" da Guarda Nacional que a população e a imprensa de sua época costumavam citar. Sua personalidade e sua história transcendem, pela evidência de suas atividades e realizações, ao capítulo pelo qual abordamos - como pioneiro do cinema exibidor, um momento apenas da vida empresarial desse cearense de Icó, nascido a 1º de janeiro de 1878. Descendendo de família tradicional e atuante na vida política do Ceará, seria muito mais pelo seu espírito empreendedor que construiria seu conceito pessoal na sociedade. Seu pai, Benjamin Pinto do Carmo, era de uma das antigas famílias de Icó, e sua mãe, Josefa Pinto do Carmo, provinha de uma família de Aracati, na época uma cidade próspera com grandes sobrados de azulejo, o primeiro porto que servia de embarque para as matérias primas do Estado. A família indicava-lhe o caminho profissional, e seu irmão mais velho, o coronel José Pinto do Carmo, tornou-se um comerciante e industrial próspero do setor têxtil, edificando seu grande poder em Fortaleza e Baturité, onde também manteve um cinema. Júlio Pinto, vindo muito jovem para Fortaleza, por sua criatividade, seria reconhecido pela variedade de seus empreendimentos e por seu espírito pioneiro. Trajetória empresarial começada pela atividade humilde, como empregado de uma movelaria, exercendo a função de "caixeiro-vassoura", isto é, de empregado simples que tinha como uma de suas obrigações varrer o estabelecimento comercial, um começo árduo que lhe serviria de escola para a idealização e construção de seu próprio negócio. Em 1895, quando tinha 17 anos de idade, já o encontramos com firma constituída, Júlio Pinto & Cia. - Importadores, instalada à rua Formosa, 59, especializando-se no comércio de "móveis, quinquilharia e artigos de uso doméstico" (A República, 12.6.1895), sendo um distribuidor de mobílias austríacas. Aos 22 anos, em 1900, revelava-se como industrial à frente da primeira fábrica de mosaicos do Ceará, a Plástica Cearense, para a qual importara uma prensa da Alemanha e iria produzir um produto de qualidade excepcional, Medalha de Ouro na Exposição Industrial do Rio de Janeiro (1908). Esta seria, provavelmente, a primeira indústria cearense a receber um Prêmio de Qualidade. Como industrial foi ainda proprietário de fábricas de sabão e de prego, o que nos embates e inimizades políticas da época, pelo fato de sua ligação familiar ao Presidente Antonio Pinto Nogueira Acioly, que exercia o poder político desde 1896, permitia à irreverência do jornalista João Brígido tratá-lo jocosamente por Júlio "Prego". Júlio Pinto constituiria família, consorciando-se com Júlia La Franca Alencar, filha do mais conceituado cirurgião do nordeste em sua época, o Dr. Meton Alfran de Alencar, condecorado por sua atuação na Guerra do Paraguai, onde fora o primeiro a fazer transfusão de sangue, por via direta, em pleno campo de batalha. O casal teria nove filhos homens: Milton, Carlos, Renato, Fernando, Júlio, Benjamin, Aloysio, Danilo e Raimundo. A preocupação com a formação dos filhos determinaria que Renato, Júlio e Fernando, fossem alunos internos no Colégio São Vicente de Paula, no Rio de Janeiro, e cursassem a Academia de Comércio de Juiz de Fora, a primeira no Brasil, que antecedeu à criação dos cursos de contabilidade mercantil. Excetuando o filho Carlos, que deveria formar-se engenheiro agrônomo no Rio de Janeiro, os filhos mais velhos foram também auxiliares do pai, quando de seu empreendimento cinematográfico. Meton cuidava da organização, das 'taboletas' e decoração do cinema; Renato e Fernando, atuaram na bilheteria; e Júlio foi um de nossos precursores projecionistas. Seguiram depois atividades industriais, a exemplo de Fernando, que fabricou a primeira máquina de lavar roupa no Brasil, a Londomatic, chegando a ocupar o cargo de diretor-Presidente da Westinghouse do Brasil. Dos filhos ainda vivos, Aloysio de Alencar Pinto dedicou-se à música, pianista renomado, hoje radicado no Rio de Janeiro, cidade a que está ligado pela participação na história dos movimentos culturais, e Raimundo Pinto, que permanece em Fortaleza à frente de suas atividades comerciais. Os empreendimentos de Júlio Pinto incluíram o arrendamento do Pavilhão Caio Prado, local de referência da vida social, no histórico Passeio Público, e que foi cenário da apresentação do Fonógrafo de Edison, em 1891, pelo pioneiro Frederico Figner. Em 1905, o arrendamento do Pavilhão foi renovado por 9 anos, mas, quando da revolução de 1912, movimento político que iria depor o Presidente do Estado Nogueira Acioly, o histórico logradouro seria destruído e incendiado. Outra realização comercial de grande importância, a que assumiu Júlio Pinto, foi a manutenção do estabelecimento conhecido como Casa Palhabote, e por ele adquirido após a morte, no dia 31 de agosto de 1904, do português Antonio Dias Pinheiro, o "Palhabote". As atividades comerciais, no amplo prédio de oito portas de frente, à rua major Facundo, nº 64, com fundos correspondentes à rua Barão do Rio Branco, nº 57, passaram a ser exercidas sob o nome de Cassino Cearense, constituindo-se um complexo de atividades que incluía fábrica de gêlo, tabacaria, salão de bilhares, bar, e a partir de 1909, um cinema. O ingresso de Júlio Pinto no setor de cinema, ocorreria quando patrocinou a instalação com o nome de Cassino Cearense, a 1º de junho de 1909, do cinema da firma Empreza Carvalho & Ltda., que anunciava seu equipamento "Stereopticon", responsável por uma programação de excelente qualidade. Após a temporada do Stereopticon, logo a seguir, no dia 18 de setembro de 1909, é definitivamente inaugurado o Cinema Júlio Pinto, cuja divulgação publicitária alterna-se com a denominação de Cassino Cearense. Ao ato inaugural tinha-se o prestígio da presença do Presidente Dr. Nogueira Acioly e autoridades do Estado. Júlio Pinto importou, em 1910, de Paris, um Chronophone Gaumont, com o qual lançaria também o "cinema falante", com as mais recentes produções "sonorizadas" pelo sistema acoplado do fonógrafo. O Cinema Júlio Pinto, passou pelas tentativas de "trust" exibidor em Fortaleza, em 1913, e em 1916, ocasião em que o Cassino Cearense, e os cinemas American Cinema e Riche, seriam fechados e compensados por percentual de faturamento dos cinemas remanescentes. Mesmo após a morte de Júlio Pinto, no dia 4 de dezembro de 1916, o Cassino Cearense é reativado, e temos registro de sua atividade pelo menos até março de 1920. Associado ao dr. Meton de Alencar, na firma Empresa Auto Transporte, coube a Júlio Pinto fazer chegar a Fortaleza, no dia 28 de março de 1909, o seu primeiro automóvel, um veículo de marca Rembler, seguindo-se outros carros: um automóvel e um caminhão da fábrica francesa De Dion Bouton, e dois pequenos carros italianos da marca Piccolo. Após o falecimento de Júlio Pinto, quando o seu cinema encontrava-se fechado pelo acordo do citado "trust", a Ceará Light determinou, no dia 5 de janeiro de 1917, o corte de energia do Cassino Cearense, sob a alegação de que a desativação do cinema retirava-lhe o direito de consumo, medida que iria causar danos irrecuperáveis às demais atividades desse complexo industrial e comercial. O fato determinou uma questão judicial pelos prejuíizos da paralização da fábrica de gêlo, e outras atividades comerciais, quando o brilhante advogado Raimundo Gomes de Matos obteve uma inédita indenização em favor da viúva e seus oito filhos menores, e reuniu nos autos do processo expressivos depoimentos sobre a importância desse empreendimento de Júlio Pinto. No processo, outro pioneiro de cinema no Ceará, Henrique Mesiano, ao testemunhar que o "Cassino Cearense" era um estabelecimento muito conceituado e muito freqüentado pelo público de Fortaleza, explicou a natureza do "trust" de cinema dizendo "que a testemunha, José Rola, a viúva e herdeiros de Júlio Pinto, têm uma combinação com Luiz Severiano Ribeiro para não explorarem cinema." O desaparecimento de Júlio Pinto, no dia 4 de dezembro de 1916, ocupou o destaque na imprensa. "Unitário" (5.12.1916) assim registrou seu falecimento: Júlio Pinto Uma terrível fatalidade está pesando sobre a Fortaleza. Há dias, Atropos, accesa em furia, corta, desapiedada, nas existencias, não poupando as mais preciosas. Dentro de algumas semanas, impiedosa, fez baixar ao tumulo Geminiano Maia, Castelar Sombra, Paulino Barroso, Agapito, Maurício Pires, José Pio e chegou hontem a vez de Júlio Pinto! Não foi uma morte, a morte desse conterrâneo, mas uma desgraça rematada. Era arrimo de uma familia numerosa e vergava ao trabalho, noite e dia, para, com modesta limpeza e certo conforto, tantos viverem do seu suor, ora no afan de uma industria, ora no de outras, acreditando attingir um dia de descanço. Mallogrou-se, porém, o seu empenho. Hontem se divulgou, pela manhã, que estava soffrendo gravemente de um anthrax e, á tarde, a terra que tanto nos cria como soe consumir, recebia os seus restos mortaes - oh! cura hominum quantum es in rebus inane! Agora resta chorando, com a esposa angelica, um rancho numeroso de crianças, que tudo perderam, perdendo um pae dilligente. às famílias Pinto e Meton enviamos os nossos profundos pesames.

O exemplo de Júlio Pinto, no seu interesse pelo cinema, a partir do primeiro projetor adquirido ao amigo Victor Di Maio, produziu expressivas manifestações de seus descendentes em favor da sétima arte. Dois exemplos são o trabalho do maestro Aloysio de Alencar Pinto, que se dedicou à atividade artística e, até hoje, é um pesquisador e divulgador da música e do cinema, e de Fernando Pinto, a quem se ligou Orson Welles, em 1942, na sua aventura cearense, hoje resgatada pela montagem do filme inacabado sobre a odisséia dos jangadeiros, "Tudo é Verdade" (It's All True), visto em pré-estréia pelos cearenses no Cine Fortaleza, na noite de 14 de setembro de 1994.

[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou publicadas.]

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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do livro - "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA - Volume I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza, Ceará, Brasil]
OS PIONEIROS:


4. ROBERTO MURATORI

à Senhora Rosita Sarubo Muratori e ao dr. Roque Muratori


O terceiro cinema fixo de Fortaleza, o cinema Rio Branco. importante casa de espetáculo instalada a 4 de setembro de 1909, foi resultado de esforços de dois emigrantes italianos Roberto Muratori e Antônio Mesiano, que constituíram originalmente a firma Muratori & Cia., sociedade depois desfeita em favor de Henrique Mesiano. Roberto Muratori, com o seu irmão Domingos (Domenico), veio para o Brasil como muitos outros imigrantes italianos idealizando construir uma vida nova, estabelecendo laços definitivos com a nova pátria. Vieram para Fortaleza, em 1900, chamados pelos conterrâneos e primos legítimos, os Mesianos, já aqui estabelecidos e desenvolvendo prósperas atividades comerciais no ramo de joalheria. Domingos, o mais velho, aqui aportou já casado e com a família, por exigência do pai, que não queria deixá-lo vir sozinho. Com ele viria também, procedente da Calabria, o irmão solteiro, mais jovem, Roberto, que constituiria família no Ceará. Chegaram à capital cearense por convite do comerciante Carlos Mesiano, joalheiro, que desejava viajar à Suiça, em 1901, conduzindo os filhos para que continuassem seus estudos, como era de bom costume na época, em colégios daquele país. Face a ausência prolongada, pretendia deixar seu estabelecimento comercial em mãos de pessoas de confiança. A viagem, entretanto, acabou não ocorrendo, criando uma difícil decisão dos Muratori, quanto à permanência ou retorno à Itália. Roberto insiste em ficar e, por sua persistência, Domingos - mesmo contrariando a esposa - fica definitivamente no Brasil. Os irmãos Muratori torna-se-iam comerciantes de jóias, como os Mesianos que tinham uma bem sucedida história comercial. Profissionais de ouriversaria, com excepcional talento para a mecânica, sempre manifestaram em suas atividades o espírito aventureiro e criativo. Domingos ou Domenico Muratori, que foi cônsul da Itália no Ceará, por decreto real, aqui permaneceu até a morte. De onze filhos, cinco sobreviveram: Antônio, Vicente, Milton, Anita e Rosa (Rosita Muratori). Desses lembramos Milton, agora novamente residindo em Fortaleza aos 93 anos de idade e plena lucidez, por ter sido mantenedor, por trinta anos, dos mecanismos da antiga Coluna da Hora, símbolo da histórica Praça do Ferreira. Rosita, que também foi casada com um italiano, ângelo Sarubo, que aqui enviuvara, é ainda hoje viva, mantendo-se lúcida e animada nas recordações do início do século. Roberto Muratori, antes de sua incursão pelo cinema exibidor, notabiliza-se como competente ourives, e por seu entusiasmo especial pela mecânica. Daí estar ligado ao episódio histórico da chegada do primeiro automóvel ao Ceará, em 1909, um Rembler, americano, adquirido em consórcio por Júlio Pinto e Meton de Alencar. é provável que ele tenha sido o animador para que Antonio Mesiano ingressasse, em sociedade, no ramo de cinema, sob a firma Muratori & Cia., com um salão que marcou época na cidade - o Rio Branco. A sociedade foi mantida de 4 de setembro de 1909 a março de 1912, quando Roberto Muratori, Antônio e Carlos Mesiano (filho do chefe do clã, o velho Carlos Mesiano) retiram-se da firma, passando o Rio Branco a ter como único proprietário, Henrique Mesiano, que se tornaria um apaixonado da exibição cinematográfica. Roberto Muratori, além de proprietário do cinema, era o próprio projecionista, fato comum na época do pioneirismo. E também dava manutenção, pessoalmente, ao motor que gerava energia para o cinema, cujo salão, em andar térreo, sem balcão, ocupava a frente do prédio voltada para a rua Barão do Rio Branco, fazendo fundos com as dependências ocupadas pela casa de jóias, de sua propriedade, localizada na rua Major Facundo. O prédio foi depois dotado de um andar superior, que serviu de residência à família. Atribui-se a Roberto, sem maior comprovação, as transmissões pioneiras de radiofonia, em Fortaleza, captadas no sistema rudimentar de aparelhos de cristal de galena, com o que teria sido o pioneiro em mensagens comerciais por ondas de rádio. Foi amigo de Victor Di Maio, o pioneiro do cinema no Brasil, e dele ficou a lembrança de pessoa dinâmica e empreendedora. Após encerrar suas atividades como empresário de cinema, permanece ainda algum tempo no Ceará, com a esposa Zulmira e os filhos César, Stefenson e Italo. Mais tarde, fixa residência no Rio de Janeiro, onde também desenvolveu bem sucedidas atividades comerciais.

[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou publicadas.]

NÓTULAS SOBRE ROBERTO MURATORI

1. Roberto Muratori tinha sua "oficina de relojoeiro" instalada na rua Major Facundo, nº 73, podendo-se classificar como comerciante. Vemos, entretanto, em documento da comunidade cearense, datado de 15 de abril de 1904, em defesa de Rodolpho Theophilo e sua campanha pela vacinação gratuita, que Roberto e Domingos Muratori são identificados como "artistas", e o velho Carlos Mesiano, como "negociante". Sobre a morte de Carlos Mesiano, encontramos em "Unitário", de domingo, 31 de dezembro de 1916: "Carlos Mesiano - Falleceu hontem, nesta capital, o joalheiro, proprietário e capitalista, Carlos Mesiano, italiano de nacionalidade. Deixou soffrivel fortuna, mulher e filhos, todos estes de bem acabada educação. Nossos pezames à digna esposa e mais familiares."

2. A chegada do primeiro automóvel ao Ceará, no dia 28 de março de 1909, mereceu várias narrativas. Raimundo Menezes ("Coisas que o tempo levou...- Crônicas Históricas de Fortaleza"; São Paulo, 1977) diz: "Foi um acontecimento surpreendente aquele da notícia da chegada a Fortaleza, vindo dos Estados Unidos, pelo vapor inglês "Cearense", de um automóvel, já usado, comprado, em segunda mão, pela Empresa Auto Transporte, do Dr. Meton de Alencar e de Júlio Pinto, proprietários do "Cassino Cearense", a qual adquirira pela importância de Rs. 8:000$000. Era o veículo em apreço de marca americana, produto da fábrica "Rembler" e de fabricação assaz primitiva... Pela empresa compradora, John Peter Bernard acompanhava o carro, que foi recolhido ao "Palhabote", onde Roberto Muratori e o velho Dr. Meireles passaram a estudar-lhe o motor, procurando, com esforços inauditos, fazê-lo funcionar o que coneguiram, dias depois, dando-se a experiência, mais ou menos, pelas 10 horas da noite. O "Rembler" movimentou-se vagarosamente, alguns metros, pela rua, guiado pelo português Rafael Dias Marques, caixeiro da "Casa Bordalo", e estancou adiante e não houve forças humanas que o fizessem andar..." Gustavo Barroso ("Consulado da China", Rio de Janeiro, Editora Getúlio Costa, s/d), é impreciso quanto a marca do primeiro automóvel: "Júlio Pinto, dono da Casa Palhabote e espírito empreendedor, comprou-o em segunda mão, no Recife. Marca Pic-Pic, tinha não sei quantas manivelas externas de freio, mudanças de velocidade e marcha ré." Otacílio Azevedo (Fortaleza Descalça -Reminiscências; Fortaleza, Edições UFC, 1980), equivoca-se quanto ao ano: "Foi Júlio Pinto que fez chegar a Fortaleza o primeiro automóvel, em 1912". Há, enfim, o registro com a confiabilidade do médico, ensaista, diplomata e grande historiador Guilherme Studart, o Barão de Studart (nascido em Fortaleza, a 5.1.1856; falecido a 25.9.1938), em sua obra "Datas e Factos para a História do Ceará" (Fortaleza, Tipografia Comercial, 1924): "1909 - 28 de março: Primeira experiencia no automóvel importado pela Empreza Auto Transporte Cearense e chegado à Fortaleza a 26 a bordo do vapor inglez Cearense. Os introductores deste melhoramento foram o Dr.Meton de Alencar e o negociante Júlio Pinto." Aloysio de Alencar Pinto, filho do Major Júlio Pinto, disse-me em entrevista que seu pai adquiriu, logo após o Rambler, outro dois carros.

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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]

Capítulo do livro – "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA – Volume I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 – 60.170-320 – Fortaleza, Ceará, Brasil]

OS PIONEIROS:



5. HENRIQUE MESIANO

à Senhora Zilma Mesiano, sua filha única.


Foram os Mesiano o primeiro clã italiano que, vindo ao Ceará, aqui encontrou campo fértil para desenvolvimento dos seus negócios. Carlo Mesiano veio da Calabria, já casado com a sobrinha Carmélia Nery, de quinze anos. O casal teve dez filhos: Carlos, Henrique, Beatriz, Antônio, Roque, Marieta, Adelaide, Achilles, Jorge e Cristina. Todos nascidos em Fortaleza. Foi Carlo Mesiano quem, em 1900, proporcionou a vinda para o Ceará dos seus primos, Muratori, que aqui também se destacaram. A atividade principal do clã, o comércio de jóias, com uma bem montada loja à rua Major Facundo, nº 76, com três portas e com vitrinas contendo um estoque riquíssimo. O acervo do estabelecimento, no depoimento de contemporâneos, chegava ao teto do salão. A fundação desse ponto comercial, Casa Mesiano, ocorreu em 1870, e Carlo Mesiano, cujo nome algumas vezes aparece grafado como Charles, construiu seu prestígio no mercado com evidente competência profissional. Carlo Mesiano foi também, no século passado, provavelmente o primeiro agente ou delegado consular da Itália, em nosso Estado. A morte do chefe do clã, no dia 30 de dezembro de 1916, determinaria a retirada da família para o Rio de Janeiro. O prédio em Fortaleza foi vendido. E uma nova joalheria seria instalada à rua Uruguaiana, na então capital federal. Aqui permaneceram por algum tempo dona Carmélia, e os filhos Roque, Cristina e Marieta. Henrique Mesiano, nascido a 15 de março de 1887, seria o único membro da família a radicar-se definitivamente em Fortaleza e a voltar seu entusiasmo ao ramo empresarial do cinema. Carlos e Henrique, os filhos mais velhos, foram estudar na Europa, ainda crianças, em 1894. Inicialmente fizeram a escola básica na Itália, depois seguiram para a Suiça com a finalidade de formarem-se na arte de relojoaria. Henrique, vítima de bronquite e recomendado a evitar o clima frio da Europa, regressa, em 1902, sem concluir os estudos na Suiça. Carlos voltaria mais tarde já formado. A família Mesiano foi toda ela formada em diversas áreas de conhecimento. Antônio (nascido a 25.11.1889) e Achilles, graduados em medicina, ingressaram depois na Marinha Brasileira onde alcançaram elevada patente. Roque foi contador e Jorge, engenheiro. E todas as filhas diplomaram-se professoras. Dessas, a mais nova, foi exímia pianista, cantava, e por usar uma pulseirinha de ouro no tornozelo, despertava a crítica provinciana, que julgava ser exibicionismo por ser de família rica. Henrique Mesiano, afinal, foi o único a não formar-se, ajudando o pai nos negócios. Certamente foi Henrique quem atuou mais decididamente quando da criação do Cinema Rio Branco, embora seu irmão Antônio apareça na constituição legal da firma. Depois, vincula-se especifica e definitivamente ao cinema, a partir de março de 1912, ao ser dissolvida a primitiva firma Muratori & Cia., que criara em 1909 o Cinema Rio Branco. A condução dessa casa de exibição destaca-lhe os méritos, pois de imediato teve que enfrentar os difíceis embates que o mercado apresentava. Em fevereiro de 1913, há um arrendamento - pouco esclarecido - à Empresa Coute, de Maceió, para de imediato, entregar-se ao primeiro “trust” de cinema local, período em que Polytheama, Rio Branco e Cassino Cearense, integram-se à "Empresa Cinematographica Cearense", que tinha como gerente José Rola e secretário, Luiz do Rosário. No mês de agosto, o trust dissolve-se e o Cinema Rio Branco retorna a sua atividade independente. A 20 de fevereiro de 1916, novo trust é constituído e fecha o Rio Branco, que fica de portas cerradas até 7 de janeiro de 1917. No ano de 1917, Henrique Mesiano entra decidido no mercado de cinema. No dia 7 de janeiro, reabre o Cinema Rio Branco. A 12 de janeiro, funda o Cinema da Estação, no Boulevard Joaquim Távora, nº 1.916, que teve vida movimentada. E já a 11 de fevereiro, lança o Cinema Tiro Cearense, ao ar livre, no Passeio Público, com existência efêmera. Todos esses esforços, não concederiam a Mesiano as mesmas condições e o mesmo espaço que ocupara com o primitivo Rio Branco. Os impedimentos do trust já tinham favorecido o surgimento de um poderoso concorrente, no talento de Luiz Severiano Ribeiro, que a partir do advento do Cinema-Theatro Majestic-Palace, no dia 14 de julho de 1917, assumira para sempre o comando absoluto do mercado exibidor cearense. Esse domínio faria desaparecer, em definitivo, a 21 de fevereiro de 1919, o velho e tradicional Cinema Rio Branco. A ausência, por dez anos, de Henrique Mesiano na área de cinema, dar-se-ia em razão de contrato firmado com Luiz Severiano Ribeiro para fechamento de seu cinema em favor de uma renda fixa mensal que lhe foi arbitrada. Por essa época, casa-se com a cearense Raimunda de Souza, de quem tem uma única filha, Zilma, que acompanhou sua trajetória profissional até a morte. Viúvo, casou-se pela segunda vez com uma italiana, que permanece pouco tempo e retorna apenas uma vez a Fortaleza, não fixando aqui sua residência. Teve ainda uma grande paixão por uma alemã, Frida, a quem conhecera e namorara na Europa, apesar da barreira lingüística. Henrique falava fluentemente italiano e francês. Com o vírus do cinema no sangue, ao encerrar-se seu contrato com Severiano Ribeiro, comprou um caminhão, no qual viajava com a filha, um motorista e a esposa deste. Visitavam a princípio cidades do interior cearense, onde não existia cinema, nem mesmo luz. Em cidades como Itapipoca, Acaraú e a região de Itapagé, exibia à noite alguns filmes velhos, utilizando-se de um projetor ligado à bateria do caminhão. Alguns filmes de sua propriedade, saldos de seu antigo estoque, outros obtidos com padres amigos, da Igreja do Cristo Rei. Filmes como "A Vida de Santa Terezinha" e "São Francisco de Assis", atraiam grande público. As cidades interioranas tinham noites festivas, principalmente nas festas das padroeiras. Assim foi que Henrique Mesiano percorreu cidades da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco, viajando daqui por navio e outros transportes, realizando-se no que mais queria, o cinema, seu grande momento de realização e lazer. Nas cidades dotadas de energia, as exibições eram feitas em salões paroquiais ou casas cedidas pela prefeitura. Foi então, em fevereiro de 1932, que tentou seu retorno de forma mais definitiva ao lançar-se com exibições regulares em Fortaleza, no Teatro José de Alencar. A presença forte da Empreza Ribeiro não lhe daria muito espaço, pois não tinha acesso nem mesmo às distribuidoras de filmes. Utilizava-se de cópias antigas, já gastas e estragadas, o que se constituía quase sempre em perda de dinheiro nesse empreendimento. A programação teve altos e baixos, desde filmes alemães da UFA, passando pelo seriado "Os Mistérios do Bairro Chinês" (The Chinatown Mystery), até filmes dos cowboys Jack Perrin, Reed Howes e Fred Thompson. Na cabine de projeção o esforço de sua auxiliar, molhando pontas de fitas quebradas, raspando as extremidades e colando-as com acetona, para regularizar as projeções. Mas, o grande fracasso de exibição foi "La Bohème", com John Gilbert e Lillian Gish, no dia 17 de abril. A película quebrava continuamente, tentava-se retomar a projeção, enquanto o público reclamava. Era evidente que o custo desse esforço de voltar ao ramo de cinema, consumiria todo o capital que durante dez anos acumulara, dinheiro do contrato firmado com Severiano Ribeiro, capital que nunca utilizara no menor valor para seu uso pessoal. No dia 8 de maio, foi feita a última exibição: "Sorte Muda" (Quick Chance), da Rayart, 1925, com George Larkin. Tinha passado a era do cinema mudo e o novo cinema exigia sólida estrutura financeira. Como empresário, tentou outras atividades: foi proprietário de indústria de descaroçamento de algodão. Teve depois uma confeitaria, em pequena dependência térrea do Excelsior Hotel. Foi depois proprietário do Posto Excelsior, no mesmo local, onde tinha entre outros carros um DeSotto, de cor preta, que freqüentemente usava. Enfermo desde 1926, quando um derrame deixou-o com uma perna imobilizada e o organismo debilitado, assim mesmo andava arrastando a perna com o apoio de uma bengala. Conviveria com as limitações físicas por quatorze anos. Alma simples, coração bom, na visão dos que o conheceram, Henrique Mesiano não se queixava de ver-se impedido de voltar ao empreendimento cinematográfico. Mas, foi com excepcional dedicação que ouvindo confidência de Clóvis Janja, que estava desistindo de um até então bem sucedido empreendimento independente, a rede de cinemas criada em 1940 capitaneada pelo Cine Rex, ofereceu-se para ajudá-lo gratuitamente na estratégia de lançamentos de filmes. Por certo uma experiência extremamente gratificante nesse período final de vida. Foi no Cine Rex que se sentiu mal, em certo momento, e atendido pelo doutor Vulpiano Cavalcante, amigo pessoal que residia em prédio vizinho ao cinema. A partir desse momento, assistido pelo conceituado médico, em sua residência, viveria mais alguns dias, vindo a falecer no dia 13 de maio de 1941, com a idade de 54 anos. Um autêntico pioneiro cuja memória merece ser reverenciada, por seu idealismo e amor ao cinema.

NÓTULAS SOBRE HENRIQUE MESIANO


1. Aloysio de Alencar Pinto descreve-me, em entrevista, a interessante figura física de Henrique Mesiano: "Ele tinha um físico como o de Charles Chaplin. Usava um bigodinho igual ao do Chaplin, mas igual, completamente. Era a cara do Chaplin. Até o penteado... Era o Carlitos. A gente via o Mesiano, e estava vendo a fisionomia do Chaplin... Na época, era um bigodinho que só ele usava, aquele bigodinho do Chaplin; um "negócio" que cobre apenas o tamanho do nariz."

2. Zilma Mesiano, filha única de Henrique Mesiano, ainda residente em Fortaleza, disse-nos sobre seu pai: "Meu pai era uma alma boa, um coração bom; não guardava ressentimento de ninguém. Talvez tivesse uma certa mágoa do Luiz Severiano Ribeiro, embora nunca me tenha confessado. Ele não gostava de falar nesse assunto. No tempo do Janja, entretanto, pelo entusiasmo a que se dedicava pelo sucesso do amigo, eu notei que ele queria tirar uma revanche... Na verdade, ele poderia ter guardado uma certa mágoa pela concorrência implacável. Se o Ribeiro já estava tão rico, com cinema em todo lugar do Brasil, bem que podia deixar uma chance para o meu pai. Na verdade ele não gostava muito de falar. Quando eu o provocava perguntando sobre a minha mãe, já falecida, dizia: "-Minha filha, os mortos têm que ficar sossegados; eles precisam ficar repousados..." Nos outros negócios que desenvolveu, foi algumas vezes roubado por pessoas que com ele trabalhavam. Mas, confiava em todos, porque dizia que se não fazia mal a ninguém, portanto, os outros não fariam isto contra ele. Quando eu insistia, desconfiada, ele dizia: "Minha filha, você parece que na outra encarnação foi índio". Eu tive uma infância muito boa. Ele era tudo para mim. Mãe, irmão, tudo que eu não tive... A gente se dava muito bem e foi a única pessoa que me entendeu bem. Quando casei e ele vendeu o posto de carros de aluguel, declarou que agora já podia morrer. Isto aconteceu quando eu tinha cinco meses de casada. Fiquei desesperada. Quase morri assim junto com ele... Mas, já estava grávida, à espera de um filho, e superei..."

3. A constituição do trust da União Cinematographica, em 1916, referida no texto anterior, teria sido justificada pela seca de 1915, um dos maiores flagelos que atingiu o Ceará. Fenômeno cíclico da região nordestina, a seca teve ocorrência, no período abrangido neste livro, nos anos de 1900, 1903, 1915, 1919 e 1923.

4. A Empresa Clóvis Janja & Cia., uma saudável iniciativa de circuito independente em nossa cidade, desenvolveu-se em 1940, com a inauguração sucessiva do Cinema Christo Rei, a 6 de junho; o Odeon, no dia 18 de junho; e o Cine Rex, cinema que fez história e deixou saudades, instalado a 10 de agosto. Esse capítulo será abordado em próximo volume da obra "A Tela Prateada".

5. Na temporada no Teatro José de Alencar, Henrique Mesiano apresentou filmes como "Metropolis" (Metropolis), de Fritz Lang; "Perfumes, Flores e Beijos" (Der Fuerst von Pappenhein), de Richard Eichberg; "Por que choras palhaço?" (Der Tauzender Tor), de A. W. Sandberg; "As Surpresas do Destino" (Wochenendizauber), de Rudolf Walther-Fein; "A Máscara do Esqueleto" (La Maschera dello Schèletro), de Domenico Gaido; "Romance de uma Princesa" (Königin Louise), de A. W. Sandberg; e muitos outros.

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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do livro – "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA – Volume I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 – 60.170-320 – Fortaleza, Ceará, Brasil]

OS PIONEIROS:



6. JOSÉ DE OLIVEIRA ROLA
Ao sociólogo Abelardo Montenegro


José de Oliveira Rola contribuiu para a dinâmica sócio-cultural de Fortaleza, ofertando-lhe, em 1911, aquele que seria o mais lembrado dos seus primitivos cine-teatros: o Polytheama. Por isto ele assume esse destaque em nossa galeria dos pioneiros. Nascido a 12 de maio de 1867, no sítio “Retiro”, no município de Trairi, José Rola segue o caminho do talento empresarial, a partir da simples função de caixeiro em um estabelecimento comercial. Fez-se comerciante graças ao seu espírito empreendendor, voltado não apenas para o lucro, mas para a inovação, o progresso e a animação da cidade. Diz-nos Abelardo Montenegro, seu mais autorizado biógrafo, no livro "A Praça do Ferreira - Tentativa de Interpretação do Ceará Moleque" (Fortaleza, Editora A. Batista Fontenele, 1959), os traços do seu gênio criativo: "Leiloeiro, corretor, comerciante e industrial, José Rola era um espírito progressista e inovador. Foi ele quem rompeu com a rotina dos lustres iluminando os seus estabelecimentos com luz elétrica. Foi ele quem inaugurou, antes do Estado, uma rede particular de esgotos, aproveitando certo trecho da Praça do Ferreira. Foi ele quem introduziu o mobiliário de cores, quebrando a monocromia do preto. Foi ele quem terminou com o predomínio dos quiosques, abrindo casas confortáveis para a freguesia. Foi ele quem construiu o Pavilhão Atlântico para abrigo dos que embarcavam e desembarcavam. Foi ele quem se adiantou ao uso caseiro dos ventiladores e aparelhos de louça e vidro”. A José Rola a cidade deve, no início do século, um dos seus mais distintos estabelecimentos: a Maison Art-Nouveau, que instala com o genro Fiuza Pequeno, um misto de restaurante e café, ponto obrigatório de reunião da juventude, e que também abrigaria o primeiro cinema fixo de Fortaleza, o Cinema Di Maio. Segundo Edigar de Alencar, em sua obra "Fortaleza de Ontem e de Anteontem" (Fortaleza, Edições UFC, 1980) : "José Rola era incansável e estava sempre tomando iniciativas que agradavam ao povo. Era um homem de espírito inteligente e muito inclinado ao viver popular. Comerciante nato, tinha o faro dos negócios. Por muitos anos a "Maison Art-Nouveau" foi um dos primeiros estabelecimentos no gênero no Norte". Nos tempos da Maison Art-Nouveau, revela-nos em entrevista Abelardo Montenegro, José Rola recorria aos navios que aportavam em Fortaleza para que suas orquestras animassem as noites de seu salão. E em especial nas noites de domingo, conduzia a orquestra nas diversas linhas de bonde. Revelando ainda seu espírito de animador da vida urbana, promovia corridas de bicicletas em plena Praça do Ferreira. Outro estabelecimento de sua propriedade, na mesma praça, coração da cidade, foi a Casa Americana, onde havia bilhares jogo de bicho, e ainda para a atração do público, "um velho de óculos que decifrava sonhos e previa o futuro". Como empresário teatral e cinematográfico, com o seu Cine-Theatro Polytheama, enfrentava os competidores recorrendo a todos os recursos de sua criatividade. O seu bar era um ponto de freqüência. Distribuía convites entre as famílias importantes, visando atrair para as sessões os rapazes e moças. O mesmo em relação aos senhores de idade, habitués dos bancos da Praça, que recebiam ingressos grátis. Ainda a José Rola se deve a iniciativa de comercialização do caldo de cana, em garapeiras a que se denominou na época de "brocoiós", primando pela qualidade dos serviços, usando cana raspada e vistosos jarros de metal para depósito do caldo. Homem simples e alegre, tinha a verve espirituosa comum aos cearenses, identificando-se com todas as manifestações festivas de nosso povo. Casado com Semiramis de Oliveira Rola, a 12 de maio de 1888, teve cinco filhos: Maria de Lourdes (Lurdinha), casada com Augusto Fiúza Pequeno; Ninon; Laura, casada com George Moreira Pequeno; Carlos e Renato Oliveira Rola. Sua morte, em 1934, foi uma perda para a cidade. Achamos atual o que sentenciou Abelardo Montenegro em seu livro sobre a nossa Praça e o espírito do cearense: "A esse homem que, a golpes de esforço e inteligência, ascendeu de caixeiro a patrão, e a quem Fortaleza deve muitas inovações, ainda não foi prestada a merecida homenagem".
[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou publicadas.]

SOBRE JOSÉ DE OLIVEIRA ROLA

1. A Maison Art-Nouveau, com novas instalações, foi inaugurada a 8 de dezembro de 1907. Sôbre a inauguração, publica o "Jornal do Ceará" (7.12.07) : "Maison Art-Nouveau. - O sr. José d’Oliveira Rola, sócio gerente da "Maison Art-Nouveau", veio à redação convidar-nos a assistirmos, amanhã, às 8 horas do dia, à inauguração dos novos e vastos salões do conhecido estabelecimento. Agradecido." O jornal "Unitário" (10.12.07) comenta essa inauguração: "Maison-Art-Nouveau - Ante-ontem, domingo, teve lugar à inauguração da Maison Art-Nouveau, presente grande número de pessoas, para cujo ato recebemos o convite do snr. José d’Oliveira Rôla, sócio gerente da mesma. Durante todo o dia esteve repleta de visitantes, entre os quais cavalheiros e senhoras da melhor sociedade. Foi extraordinário o movimento da casa, que só se fechou às 12 horas da noite".

2. O sociólogo Abelardo Fernando Montenegro dedica um capítulo do seu livro "A Praça do Ferreira - Tentativa de interpretação do Ceará-Moleque" (Fortaleza, Editora S. Batista Fontenele, 1959), à memória de José de Oliveira Rola. O consagrado intelectual cearense afirmou-nos, em entrevista, ter tido a maior convivência possível com ele, não apenas morando na mesma casa, mas dormindo no mesmo quarto que ele e trabalhando igualmente no seu escritório. Isto porque tendo falecido seu avô materno e sua mãe, a tia-avó materna, Semiramis de Oliveira Rola, convidou sua avó e ele para viverem em sua casa. Abelardo Montenegro, nascido em Crateús, a 30 de maio de 1912, foi advogado, promotor de justiça, professor concursado da Universidade Federal do Ceará, jornalista, escritor e sociólogo. Dentre seus trabalhos publicados, destacamos: "O Romance Cearense", "Antonio Conselheiro", "Soriano de Albuquerque, um pioneiro da Sociologia no Brasil", "História do Cangaceirismo no Ceará", "Os Partidos Políticos do Ceará" e "Ceará - Tentativa de Interpretação".

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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]
Capítulo do livro – "FORTALEZA E ERA DO CINEMA"[PESQUISA HISTÓRICA – Volume I, 1891-1931], de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 – 60.170-320 – Fortaleza, Ceará, Brasil]

OS PIONEIROS:



7. LUIZ SEVERIANO RIBEIRO


Samuel Tabosa, veterano e exemplar funcionário do grupo Severiano Ribeiro

O Ceará produziria no talento e personalidade dinâmica de Luiz Severiano Ribeiro não apenas um dos seus mais brilhantes pioneiros, mas aquele que iria assumir a nível nacional, uma inconteste liderança no setor da exibição cinematográfica e depois na produção de cinema em nosso país. Nascido em Baturité, aprazível cidade serrana do Ceará, no dia 3 de junho de 1885, filho do médico Luiz Severiano Ribeiro, que integrou os serviços médicos na guerra do Paraguai, e de Maria Felícia Caracas Ribeiro, veio prosseguir seus estudos e ganhar a vida em Fortaleza quando tinha por volta de dezenove anos de idade. Exerceu funções modestas, como gerente de hotel próximo à estação central de trens, mas, ativamente dedicado às suas funções de trabalho, ascenderia no mundo dos negócios. Em 1910, aos 26 anos de idade, casou-se com Alba Morais. com quem manteria uma tranqüila união conjugal por cinqüenta e oito anos. Os primeiros tempos não foram fáceis para a esposa, como narra em livro F. Silva Nobre: "com três meses de casada, inconformada com a vida que o marido levava, foi ao pai queixar-se de que Luiz parecia não lhe ter amor, já que pouco estava ao seu lado e nunca lhe dava a mínima importância. O sogro, cioso da felicidade da filha, procurou apurar o que acontecia realmente e verificou que o genro passava o tempo trabalhando, a ponto de exaustão, e depois de alguns dias aconselhou a filha a ter compreensão." O casal teve cinco filhos: Luiz Severiano Ribeiro Junior - depois sucessor do pai à frente da empresa, Germana Ribeiro de Lamare, Lais Ribeiro Pinto, Iolanda Ribeiro Portela e Vera Severiano Ribeiro de Sóllis. A primeira oportunidade comercial foi sua sociedade com Oscar Araripe, em 1912, proprietário da Livraria Menescal. Em 1915, com recursos próprios, instala a Livraria Ribeiro, localizada à rua Major Facundo, nº 92, chegando a criar uma subsidiária de sua firma em Recife. Por essa época, diversifica seus negócios com o arrendamento ou criação de estabelecimentos diversos, como hotéis, dentre os quais o Majestic Palace e o Hotel de França, sucessor do velho Hotel De France, criado no século passado pelo francês Hippolite Dragaud; uma fábrica de gelo - à rua Santa Isabel, 220; o Café Riche e a barbearia Maison Riche, ambos na Praça do Ferreira; o salão de bilhar no Majestic Palace; e outras iniciativas comerciais. Nessa linha de expansão é que se volta para o cinema. Seu ingresso como exibidor de cinema ocorre ao instalar o Cinema Riche, no dia 23 de dezembro de 1915, no mesmo local em que o velho Victor Di Maio iniciara as exibições permanentes em Fortaleza. Severiano Ribeiro tinha então como seu sócio capitalista, já que este nunca se dedicou efetivamente a gestão de cinema, o destacado empresário e emérita figura da sociedade cearense Alfredo Salgado, um dos sócios instaladores da sociedade Perseverança e Porvir, em 1880, dedicada à luta pela abolição da escravatura, transformada depois na Sociedade Cearense Libertadora. Foi certamente Luiz Severiano Ribeiro o articulador do denominado "trust" exibidor em janeiro de 1916, pelo qual Fortaleza permaneceria apenas com dois cinemas. Como referia-se o "Correio do Ceará" (18.1.16): "Um contrato, com certeza bem lucrativo, feito entre as empresas dos diversos cinemas de nossa capital, estabeleceu a supressão do "Riche", "Kinema" e "Cassino", ficando, somente, "Rio Branco" e "Polytheama". Acordo cumprindo, com o fechamento desses cinemas no dia 17 de janeiro. No "Diário do Estado" (19.1.16) esclarecia que "os cinemas "Amerikan Kinema", "Riche" e "Cassino Cearense", deixarão de funcionar, recebendo por este motivo os dois primeiros 19% e o último 14% do lucro obtido pelas duas casas - "Polytheama" e "Rio Branco" - que continuarão a funcionar de comum acordo". Logo a seguir encontramos a notícia no "Correio do Ceará" (21.1.16) que se constituía uma nova empresa, Ribeiro & Cia., a cujo cargo se achava a União Cinematographica, representada pelos senhores Luiz Ribeiro, José Rola, Henrique Mesiano e Raul Walker. Explicava o mesmo jornal: "A razão do acordo feito é que, na atual crise, Fortaleza não comporta este grande numero de casas de diversões, resultando daí sensível vasante nas sessões cinematográficas". A 3 de março, a união decidiria pelo fechamento do Rio Branco e a reabertura do Riche. Com a dissolução da "união cinematográfica", a 3l de dezembro de 1916, Luiz Severiano Ribeiro, fortalece o seu Cinema Riche, e prepara-se em sociedade com Alfredo Salgado para o seu definitivo domínio da exibição cinematográfica em Fortaleza: a inauguração do luxuoso Cine-Theatro Majestic Palace, no imponente edifício construído pelo capitalista Plácido do Carmo, a 14 de julho de 1917, inviabilizando os concorrentes menores. A estes, Luiz Severiano Ribeiro oferecia contratos de fechamento pelo prazo de dez anos, mediante retribuição financeira mensal. Desta formula e da "união" aprendera a prática comercial de associação pelo qual ingressaria em outros mercados e torna-se-ia o criador de um império cinematográfico dotado de luxuosos cinemas no Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras. Até o final dos anos 10, Luiz Severiano Ribeiro teria sua base cinematográfica, em Fortaleza, com os cinemas Majestic-Palace, Polytheama e Riche. Seus únicos concorrentes remanescentes, os cinemas Cassino Cearense, da família de Júlio Pinto, e o Rio Branco, de Henrique Mesiano, sucumbiriam através de acordos comerciais de fechamento. Nos anos 20, ressalvado os cinemas de bairros, geralmente mantidos por associações religiosas, a empresa de Luiz Severiano Ribeiro, teria maior ascensão com a abertura do Cinema Moderno, a 7 de setembro de 1921, e a reinauguração do Polytheama, a 19 de março de 1922. Com os cinemas Moderno, Majestic e Polytheama, servindo ao público de Fortaleza, Luiz Severiano Ribeiro lança-se a outras conquistas além fronteiras do Estado, expandindo-se pelo norte e nordeste, alcançando em 1926 o domínio da exibição cinematográfica na região que vai de Rio Branco, Acre, a Recife, Pernambuco. Em Recife mantinha os cinemas Royal, Helvética e Moderno, criando ali um "trust" semelhante ao já desenvolvido em Fortaleza. A insatisfação do público local com esse monopólio que empobrecia a qualidade da programação, aparece em protesto publicado no jornal "A Noite", reproduzido em "Cinearte" (Ano I, nº35, 27.10.26, página 3): "O sr. Luiz Severiano Ribeiro, o homem que organiza o trust dos nossos cinemas, poderia ter feito coisa melhor, isto é, menos pior. S. Sa., açambarcando todas as casas de espetáculo desta capital, ao ponto de limitar até as produções para os que não vergaram ainda ao seu poderio, descurou-se da ordem e do conforto, que em circunstâncias tais deveria oferecer aos que são obrigados a frequentar os seus apertados salões". No Rio de Janeiro, em 1925, arrenda o Cine-Teatro Centenário, na Praça Onze, de 1.600 lugares, inaugurado três anos antes pela senhora Angiolina Grimaldi, dando-lhe características populares com bom retorno comercial. Segue-se a instalação do Cinema Guanabara, na praia do Botafogo, esquina com rua São Clemente. Enfrentando dificuldades na locação de filmes, o dinâmico cearense faz seu ingresso nessa área, comercializando filmes da Metro, a quem se associa em princípio, e de quem adquire a parte acionária em doze dos cinemas já integrados à sua rede. Instala-se em definitivo, em 1926, no Rio de Janeiro, quando a partir de trabalho profícuo de expansão dos negócios edifica o maior grupo empresarial para exibição cinematográfica no país. Como a capital federal tinha em Francisco Serrador, o artífice da Cinelândia, o grande monopolizador dos cinemas de qualidade, atuando de forma autônoma e independente, Luiz Severiano Ribeiro ganha pouco a pouco credibilidade e ingressa na associação da Metro-Goldwyn, First National e Empresas Cinematográficas Reunidas, criando em 1926 uma nova e poderosa frente para distribuição de filmes no Brasil. Batalhador tenaz, estabelece-se a seguir como agente locador de películas trazidas ao Brasil pela Agência Paramount (que representava à época a Metro-Goldwyn e a First National) e a Cinematográfica Brasileira. é um dos fundadores, em 1926, da sociedade cooperativa de exibidores denominada "Circuito Nacional de Exibidores". No mesmo ano, estabelece um acordo com as firmas exibidoras Ponce, Pontes & Cia. e Noriz & Frota, tornando-se a seguir único proprietário do circuito a elas pertencentes. Já era então reconhecido pelo controle dos cinemas do Norte do Brasil, quando em agosto de 1926, adquiriu no Rio o controle acionário de inúmeros cinemas, dentre eles, o Atlântico e Ideal, e fazia sociedade com o Iris, de J. Cruz, Jr. Sua capacidade de negociação e empreendimento revelava-se inesgotável. Registramos apenas alguns fragmentos de sua trajetória. A firma individual Luiz Severiano Ribeiro, foi estabelecida a 7 de abril de 1930, quando já se lhe reconhecia um empresário competente. Em maio de 1932, reformava o seu Cinema-América, na rua Conde de Bonfim, equipando com aparelhos Western Electric. No dia 27 de outubro de 1932, inaugura em Vila Isabel, o "Cine Maracanã", em sociedade com Luiz Caruso. Incorporando muitas vezes pequenos e velhos cinemas da capital, expunha-lhe a riscos e exigia intensa supervisão. No mês de agosto de 1933, o Cinema Grajaú, na Praça Verdun, que Severiano Ribeiro arrendara de Paschoal Giorno, desaba durante a última sessão da noite, não havendo vítimas porque o desastre foi previsto pelo gerente. Segue-se em dezembro do mesmo ano, outro acidente nos cinemas da empresa: o Cinema Avenida, na Haddock Lobo, quando ocorreu o desabamento de parte do estuque do seu teto, ferindo algumas crianças durante a "matinée". Destacando-se por novos empreendimentos, é eleito, em 1933, presidente do récem criado Sindicato Cinematográfico de Exibidores, composto por figuras como Francisco Serrador, Júlio Marc Ferrez, Domingos Vassalo Caruso e Domingos Segreto. Em 1934, assumiu dois importantes cinemas de Petrópolis, o Capitólio e o Petrópolis. Em 1935; em Copacabana, no Rio de Janeiro, aos seus dois cinemas Atlântico e Copacabana vinha somar um novo salão por ele construído, o Lido. Na rua da Carioca, Severiano Ribeiro manteve dois cinemas, o Ideal e o Iris, e em 1935, fez construir o Plaza, na rua do Passeio, e o Floriano, na rua Marechal Floriano. De 1933 a 1935, Luiz Severiano Ribeiro ampliava de 12 para 30 cinemas, apenas no Rio de Janeiro. A década de 30, traz ainda uma grande vitória para o pioneiro exibidor, quando inaugura no Rio de Janeiro, o Cinema São Luiz, a 22 de dezembro de 1937, localizado no Largo do Machado, o melhor e mais suntuoso cinema brasileiro daquela época, capitaneando o seu circuito de modernos cinemas.. Recolhemos da revista "Cinearte" (Nº 414, 1.5.35) uma nota esclarecedora do empenho e do potencial do empresário cearense: "Conversando há dias com pessoa muito chegada ao ativo "trustman" cuja esfera de ação extende-se da Galeria Cruzeiro até os rincões do extremo norte, ouvimos o seguinte: -Luiz Severiano Ribeiro pretende desenvolver sempre e cada vez mais seus negócios. Ninguém se espante se depois de absorver o norte, a capital da República, Niterói e Petrópolis, voltar suas vistas para o setor sul, onde o terreno não será menos propício. Ele costuma dizer: -"Devo às próprias companhias importadoras de filmes o desenvolvimento de minha tarefa. Elas de tal maneira colocaram os exibidores independentes em um cerco de exigências, que os levaram a socorrer-se de minha organização para poderem viver..." Evidentemente Luiz Severiano Ribeiro leva sobre os seus concorrentes vantagens tais que lhe permitem até associá-los garantindo-lhes as médias de retiradas que costumavam fazer, sem outras preocupações. Contratando a produção de uma agencia, o faz por determinado espaço de tempo, dentro do qual faculta-se o direito de exibir cada film em quantos cinemas possuir. E ainda gosa de regalias de não despender verbas de propaganda que estas foram feitas pelo primeiro exibidor, embora ele aufira os maiores proveitos..." O talento cearense reafirma-se quando, após graduar-se em Londres, regressa Luiz Severiano Ribeiro Junior, a quem é dado presidir a organização de âmbito nacional Companhia Brasileira de Cinemas. Tendo ao lado, o seu filho e sucessor, expande seus negócios à produção e distribuição cinematográfica no Brasil, instituindo a Cinematográfica São Luis Ltda., a Distribuidora de Filmes Brasileiros - DBF, e a União Cinematográfica Brasileira -UCB, lançando os jornais da tela "Esporte na Tela" e "Notícias da Semana", e, a partir de 1947, ao assumir o controle da Atlântida Cinematográfica S.A., criada seis anos antes, concede-lhe o status de produtora de sucesso com presença obrigatória na sua rede de duzentos cinemas espalhados por todo o território nacional. Nesse último empreendimento, lança o cinejornal "Atualidades Atlântida" e abre espaço para o período de ouro da chanchada cinematográfica musical brasileira, alegria de uma geração de cinéfilos.. O Rio de Janeiro, transformada na grande base operacional de Luiz Severiano Ribeiro, viu surgir ao longo do tempo, suas casas de exibição mais populares: São Luiz, Palácio, Odeon, Roxy,Copacabana, Carioca, Vitória. Império, Tijuca, Madrid, Rian, Leblon, Botafogo, Veneza, América, Comodoro, Miramar, Caruso, Imperator, Santa Alice, Rex, Pirajá, Barra, dentre tantos outros que trouxeram ou trazem ainda hoje o entretenimento e a arte cinematográfica ao grande público. As capitais brasileiras que contribuíram para a edificação do império do grupo Severiano Ribeiro tiveram também a recompensa com modernos salões de exibição. Fortaleza, terra que lhe deu o apoio a grande ascensão empresarial, recebeu dois dos seus melhores cinemas: o Diogo, inaugurado a 7 de setembro de 1940, e o São Luiz, no dia 26 de março de 1958, hoje patrimônio da cidade. Sua presença forte no mercado exibidor de nossa capital não permitiriam a sobrevivência das duas heróicas tentativas de geração de circuitos independentes, iniciativas de Clóvis de Araújo Janja, em 1940, e Amadeu Barros Leal, em 1950. O velho empresário batalhador, transferiu o comando do seu império, em 1971, aos 86 anos de idade, para o filho Luiz Severiano Ribeiro Filho. No dia 1° de dezembro de 1974 falecia, no Rio de Janeiro, aos 89 anos de idade, vitima de enfarte, quando convalecia de ato cirúrgico. Seu imenso trabalho pela edificação da maior rede de espetáculos de nosso país, mesmo após enfrentar as graves restrições que se abateram sobre o mercado de cinema, encontra-se ainda hoje em expansão, marcando presença pelos novos cinemas que foram instalados a partir do surgimento dos shopping centers brasileiros. .
[Obs: As citações e transcrições, que aparecem neste texto, conservam a grafia e as regras gramaticais da época em que foram originalmente escritas ou publicadas.]

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