OS PRIMEIROS LONGA-METRAGENS
No começo, todos os filmes eram "curtas". A metragem inicial das produções cinematográficas, na Europa e nos Estados Unidos da América, não superava os 300 metros ou 1.000 pés, que se traduzia nos anúncios dos exibidores como fitas de 1 ato ou uma parte. Das primeiras produções no século passado até o ano de 1911, quando aparecem os primeiros filmes classificáveis como de longa duração, as películas são de curta metragem, exigindo uma capacidade de síntese nos mais diversos gêneros: das "vistas" naturais, ao cômico, o drama, a cena religiosa, o gênero científico, o fantástico, a temática histórica, e as "fitas d'arte" com narrativas mais pretensiosas. Até esse período, filmes curtos permitiam que sessões cinematográficas apresentassem em torno de 6 e, não excepcionalmente, até 10 produções numa programação variada.
Verificamos que em Fortaleza, no ano de 1910, os filmes exibidos ficaram nos limites de 61 a 442 metros, e em 1911, entre 95 a 383 metros, excluídos aqui o surgimento de alguns dos primeiros longa-metragens em nossas telas. O fato é que se firmou por muito tempo a padronização em 1 rolo, como se constata na produção americana exemplificada pela Thomas A. Edison Inc., Biograph Co., The Vitagraph Company of America, Essanay Film Manufacturing Co., Selig Polyscope Co. e Kalem Co., com filmes rigorosamente de 1.000 pés, critério mantido até 1912. Num segundo momento, temos filmes em duas partes ou dois rolos, correspondendo a mais de 300 metros, padrão que começa a generalizar-se e ter boa aceitação, com algumas tentativas de realizações um pouco mais longas.
A produtora Nordisk Film, de Copenhague, realiza em 1908, o seu primeiro filme de dois rolos, elevando esse numero para 13 filmes em 1909, e para 20, em 1910, ano em que surgem seis filmes com metragem entre 700 a mil metros. O ano de 1911, classificado em obra organizada por Riccardo Redi como o ano do "nascimento do longa-metragem", registra a ruptura nessa linha de produção. Notadamente os estúdios dinamarqueses lançam-se aos filmes que superam 700 e ultrapassam o limite de 1.000 metros, inovação que lhes asseguram amplo prestigio mundial. Seguem à iniciativa os estúdios franceses e italianos.
A Dinamarca produzia em 1911, 164 filmes, dos quais 46 com mais de seiscentos metros, e sua produção no ano seguinte tinha a extensão média de 900 metros. Os italianos em 1911, dentre 1.029 filmes produzidos, lançavam 4 com mais de mil metros. O crescimento de filmes extensos é bastante significativo. Tomando como exemplo a Itália, temos em 1911 - 4 filmes longos, 1912 - 16 filmes, 1913, 78 filmes. O mercado rapidamente assumiu o novo padrão de produção cinematográfica.
Filmes com duração em torno de uma hora, ou três longas partes, iriam determinar a reformulação das sessões que passaram a ser compostas por dois filmes, num primeiro momento, até chegar a fase dos anos 20, quando surgem programas com um filme principal, de longa-metragem, antecedido por complementos: curtas (jornais da tela, desenhos, comédias de um a dois rolos).
De nossos arquivos, onde preservamos os dados da exibição cinematográfica em Fortaleza, de 1897 até os dias atuais, procuramos destacar os primeiros longa-metragens exibidos. Ressaltamos, em 1911, a exibição de "Zigomar", da Eclair, em 3 parte, 45 quadros e 935 metros, no Cinema Rio Branco a 12 de dezembro. No ano seguinte, tem-se então a presença marcante de longa-metragens, com uma seqüência de lançamentos:
O Tráfico das Brancas (Den Hvide Slavehandel I), 975 metros, no Cinema Júlio Pinto, 26.2.1912;
A Dançarina (Balletdanserinden), 800 m, no Rio Branco, 7.3.12;
Notre Dame de Paris, 810 m, no Rio Branco, 9.4.12;
O Oriental Dr. Gar El Hama (Dr. Gar El Hama), 800 m, no Rio Branco, 9.4.12;
Hulda de Rasmussen (Hulda Rasmussen), 885 m, no Polytheama, 20.4.12;
O Vingado (Hævnet), 900 m, Polytheama, 20.4.12;
Os Quatro Diabos (De Fire Djaevle), 880 m, Rio Branco, 2.5.12;
Dama das Camélias (La Dame aux Camélias), Rio Branco, 9.5.12;
Calúnia de Amor -ou- Mentira Fatal (Den Skæbmesvangre Løgn), 909 m, Rio Branco, 9.5.12;
Sangue de Boemia (Gøglerblod), 1.000 m, Rio Branco, 15.5.12;
A Filha do Caminho de Ferro (Jerbanens Datter), 965 m, Polytheama, 9.6.12;
Ruy Blas (Ruy Blas), 800 m, Rio Branco, 25.6.12;
Ciúme de Índia -ou- Amor Tropical (Tropisk Kærlighed), 1.000 m, Cassino Cearense, 4.7.12;
O Sonho Negro (Den Sorte Drøm), 1.206 m, Rio Branco, 11.7.12;
Madame Sans Gene (Madame Sans-Gêne), 940 m, Rio Branco, 3.8.12;
O Morto Vivo -ou-Ressuscitado (Le Mort-Vivant), 931 m, Teatro José de Alencar, 8.8.12;
O Pescador e sua Noiva (Fiskeren & Hans Brud), 1.064 m, Polytheama, 9.8.12;
Espião da Fortaleza (Der Festungsspion), 826 m, 1.064 m, Polytheama 28.8.12;
A Ribalta (La Ribalta), 754 m, Polytheama, 2.9.12;
Romeu e Julieta (Romeo e Giulietta), 725 m, Rio Branco, 3.9.12;
São Jorge (San Giorgio Cavaliere), 720 m, Rio Branco, 5.9.12);
Cotta e Carmelitta (Molly og Maggie), 780 m, Polytheama, 5.9.12;
O Chanceller Negro (Den Sorte Kansler), 915 m, Polytheama, 11.9.12;
Quando o Amor Morre (Naar Kœrligheden Dør), 805 m, Cassino Cearense, 20.9.12;
O Filho Pródigo (Le Fils Prodigue), 1.075 m, Polytheama, 22.9.12;
A Condessa d'Adria (La Contessa d'Adria), 900 m, Cinema DiMaio, 29.9.12;
O Circo Ambulante -ou- Em Face à Serpente (Den Flyvende Cirkus), 975 m, Polytheama, 3.10.12;
As Grandes Atrações (Det Store Clou), 805 m, DiMaio, 25.10.12;
Manon Lescaut (Manon Lescaut), 890 m, 3 partes, 1 hora de exibição, no Cinema Rio Branco, 30.10.12.