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1897/1915: O LONGO DESFILE DOS EXIBIDORES AMBULANTES

Capítulo do livro - "A TELA PRATEADA" - (CIDADE DE FORTALEZA: 1897-1945 - D0 CINEMATÓGRAFO AOS ANOS DE GUERRA), de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza, Ceará, Brasil]

Ao lançamento da fotografia em movimento, em Fortaleza, através do Kinetoscópio ou Kinetoscope de Projeção, no dia 19 de setembro de 1897, sucedem-se dois grandiosos momentos para uma cidade surpreendida pela maravilha dos inventos fantásticos. Ainda em 1897, no dia 13 de novembro, é apresentado pela primeira vez o Cinematographo Lumiére, e a 3 de fevereiro de 1898, o Chronophotographo Demény. E, no rastro desses eventos pioneiros, segue-se uma legião de empresários da ilusão, demonstradores do fascínio de uma nova tecnologia e uma nova arte, com seus equipamentos estranhos e seus celulóides contendo imagens que se projetavam como se vivas fossem. Exibidores ambulantes que, mesmo depois da inauguração dos cinemas fixos, em 1908, continuaram nos visitando com suas novidades cinematográficas. Em honra desses corajosos mascates do Cinema, a quem nos referimos individualmente, um a um, no livro anterior "Fortaleza e a Era do Cinema", com transcrição de notícias e identificação dos filmes que trouxeram a Fortaleza, apresentamos a seguir a cronologia de suas presenças no Ceará.


Lançamento do Projetoscópio ou Kinetoscope-Projector, de Thomas A. Edison, pelos associados Comendador Acton e A. Ferreira Braga, que constituíram depois a firma Braga & Acton. Realizada em teatrinho construído à rua Senador Pompeu, 115, com capacidade para 500 lugares. O acontecimento histórico ocorria simultaneamente com a temporada da Imperial Companhia Japonesa, de Kosabro Yamamoto. O equipamento foi importado por Ernesto de Sá Acton através da Empresa Telephonica do Ceará, dos irmãos Confúcio e Arnulpho Pamplona. Não há registro dos filmes exibidos, mas foram certamente as pioneiras películas produzidas por Edison.

Apresentação do Kinetoscope, simultâneamente com a iniciativa de Braga & Acton, realizada pelo comerciante cearense Manoel Pereira dos Santos (Mané Coco), proprietário do famoso quiosque na Praça do Ferreira, Café Java. Com o objetivo de apresentar esse equipamento de Edison, foi preparado um salão à rua Formosa (hoje, rua Barão do Rio Branco), 56, próximo ao Passeio Público. O equipamento também foi adquirido da Empresa Telephonica do Ceará, de Pamplona, Irmão & Cia., que desde 1891 obtivera a condição de representante da Western Electric Company e distribuidora dos inventos de Thomas Edison. A imprensa não mencionou títulos de fitas apresentadas, mas, por pequeno comentário de época, supomos ter sido exibida a "Dança do Ventre" (Danse du Ventre; 1896, Kinetoscope Company), pela bailarina Fátima, sensação na Feira Mundial de Chicago em 1896. (O Kinetoscope de Edison retorna a Fortaleza em janeiro de 1898).

O Cinematographo Lumière é lançado em Fortaleza pelos exibidores Dionísio Costa (farmacêutico de profissão) e Nicola Maria Parente, com apoio do capitalista cearense Alfredo Salgado. As sessões do projetor dos irmãos Lumière são realizadas à rua Formosa, 89, próximo do Hotel de France e do Passeio Público. Os exibidores procediam de Belém do Pará e, pelo menos Dionísio Costa, segue para a Bahia, onde faz apresentações no Polytheama Bahiano, a partir de dia 4 de dezembro de 1897. Nicola Maria Parente faz sua temporada baiana entre 9 de julho e 1o de outubro de 1898. Os filmes da estréia do cinematógrafo na Bahia, certamente os mesmos vistos no Ceará, foram: "O Minueto de Luiz XV" (Menuet Louis XV, Pathé, 20m), "Visão d'arte" (Vision d'Art; Pathé, 15 m), "A chegada do Trem" (Arrivé d'un Train; Star Film, 1896, 20m, de Georges Méliès), "O Regimento de Cavalaria em Marcha", "O Beijo", "Engraçada dança por uma egípcia num Hotel" e "Os espantosos banhos de alvorada em Milão" (Les Bains Découverts à Milan -ou- Bains de Diane, 1896, Société Lumière, filmado por Giuseppe Filippi).

O Kinetoscope de Edison é instalado pelo Comendador Ernesto Acton na Praça do Ferreira, 33, em anexo da sede da Empreza Telephonica do Ceará que ocupava o imóvel de n°35. Não se tem registros de títulos de fitas utilizadas. Não há também muitas informações sobre o Comendador Acton, que foi membro do Conselho Fiscal da Empresa Telefônica, mas em nota de 17 de janeiro, quando diz estar deixando Fortaleza, ele assina curiosamente como "O Brasileiro Ernesto Acton": "Kinetoscopia! Hoje! Hoje! Gratidão! O diretor do cinematographo, à praça do Ferreira n° 33, estando de sahida desta cidade e no intento de corresponder a bom acolhimento que lhe vem dispensando o publico cearense, offerece hoje uma função gratuitamente e esperando uma enchente geral, promette exhibir novas e lindas vistas. Fortaleza, 17 de Janeiro de 1898. O Brasileiro, Ernesto Acton."

O Chronophotographo Demény, um moderno equipamento Gaumont importado da França, é exibido pelo competente fotógrafo cearense Joaquim Moura Quineau. Instala-se na rua Formosa, 134, no prédio onde funcionava a Photographia Norte do Brasil, fundada por Quineau dois anos antes, na importante artéria de acesso ao Passeio Público. A temporada ocorre de 3 a 17 de fevereiro. Tem-se então conhecimento dos primeiros filmes de sucesso como "Avenida da ópera" (Place de l'ópera; 1896, 20 m, Star Film, França, de Georges Méliès), "Banho da Parisiense" (Aprés le bal, le tub ou Le Bain de la Parisiènne; 1897, 20m, Star Film, França, de Georges Méliès, com Jeanne D'Alcy e Jeanne Brady); "Chegada de um Trem" (L'Arrivée d'un Train; 1896, 20 m, Star Film, França, de Georges Méliès), "Dança Serpentina Loie Fuller" (Danse de la Loie Fuller; 1897, 15 m, Pathé Frères, França), "Desfile da Artilharia 14 de Julho de 1896" (Défilé d'Artillerie à la Revue du 14 Juillet 1896; 1896, Gaumont, França), "Duelo Feminino" (Combat de Femme; 1897, França, de Félix Mesguich), "As Grandes águas de Versalhes" (Les Grands Eaux de Versailles. 1896, Gaumont, França), "A Partida de Cartas" (Une Partie de Cartes; 1896, 20 m, Star Film, França, de Georges Méliès), "A Saída das Oficinas Panchard et Lavassor" (La Sortie des Usines Panchard et Lavassor; 1896, Gaumont, França) e "SS.MM. O Czar e a Czarina chegando a Paris" (Arrivée à Paris de LL.MM. L'Empereur et l'Impératrice de Russie; 1896, França). A partir de Fortaleza, Moura Quineau faz incursões com o seu Chronophotographo Demény em São Luís, Maranhão, e outras cidades, onde promove também suas atividades fotográficas. (Reaparece em Fortaleza um Chronophotographo Demèny no dia 10 de agosto de 1901).

Estréia o Pantoscópio Automático, sem identificação do seu exibidor, no Pavilhão Caio Prado, no Passeio Público. O aparelho Pantoscópio, denominação de fantasia para fins comerciais, não indica qual o real equipamento cinematográfico utilizado. A temporada é anunciada com publicidade comercial na imprensa e prolonga-se de 30 de abril a 23 de maio. Dentre os filmes franceses exibidos: "Uma Bicyclista" (Corse Cycliste. 1898, 20m, Pathé Frères), "A Africana", "Enterro do Dr. Pasteur", "As Belezas de Paris", "Exploradores nas Serras de Gêlo" (Une Scène dans les régions glaciales - Le Ballon d'Andrée; 1897, 20 m, Pathé Frères), "Choque e Explosão de uma Locomotiva", "Fogo de Artifício na Torre Eiffel", "Lucia de Lamermoor", "A Pesca" (Péche; 1896), "Tilbut de Lumora", "Theatros de Paris", e o documentário sobre a grande tragédia dos espetáculos cinematográficos na França: "Incêndio no Bazar de Caridade". Seu grande sucesso é "A Vida de Christo" (La Vie et la Passion de Jésus-Christ; 1897, 13 quadros, produção Louis Lumière, realização George Hatot).

Novamente o Cronophotographo de Demèny em exibição em Fortaleza, agora em prédio à Praça do Ferreira, n° 34, ao lado da conceituada Alfaiataria Amâncio. Não há indicações maiores sobre o exibidor e os filmes apresentados, mas, creditamos essa temporada a Moura Quineau. O retorno do Chronophotographo encontra-se em anúncio, de uma coluna, publicado em "A República": "Chronophotographo de Demeny. Grande Novidade! De hoje em diante, funccionará todas as noites, á praça do Ferreira n° 34 (visinha á Alfaiataria Amancio) um esplendido Cronophotographo de Demeny, mandado vir da Europa. Haverá duas ou mais sessões por noite, começando a primeira ás 7 horas. Custará mil reis o ingresso, pagando as creanças apenas 500 reis."

O renomado Circo Pery, dirigido por Anchises Pery, no seu terceiro dia de apresentações no anfiteatro montado na esquina da rua General Sampaio com rua das Flores (atual Castro e Silva), apresenta o Biographo Americano, não existindo registro do programa dessas exibições. O cinema era ofuscado pelo brilhantismo do elenco circense que reunia a família Pery, a "família japonesa" de Frank Olimecha (nome artístico do legendário Haytaka Torakiste), a bailarina inglesa Stella Follet com suas danças serpentinas, dentre outros, e pelo trágico acidente em que faleceu, aos 20 anos de idade, o jovem trapezista José Amaral, filho de Antonio Amaral, diretor de companhia eqüestre que se encontrava em São Paulo.

Estréia do Cinematographo, trazido do Rio de Janeiro, por Arlindo Affonso da Costa, representante em Fortaleza da firma carioca Casa Bordallo & Cia., e que reside em Fortaleza pelo menos desde 1900. Na condição de exibidor de cinema, instalou-se à rua Major Facundo, 83, próximo ao Passeio Público, permanecendo até agosto, quando baixa o preço dos ingressos para 500 réis. Dentre os filmes franceses exibidos são citados como atração "A Guerra do Transvaal" (La Guerre du Transvaal; 1900, Pathé Frères) e "O Barbeiro Fin de Siècle" (Le Barbier Fin de Siècle; 1900, Pathé Frères).

Apresentação do bioscope, da Companhia d'Arte e Bioscope Inglez, dirigida por Joseph Felippe, provavelmente o operador italiano Giuseppe Filippi. Procedia de São Luis onde fizera temporada de 13 de julho a 9 de agosto e produzira algumas "vistas fixas". As sessões são realizadas no Teatrinho Iracema de 17 de agosto até 8 de setembro, com ingressos ao preço de 2$000 réis. Os filmes obtiveram grande sucesso e o empresário apresentou diversas "vistas fixas" da cidade de Fortaleza por ele produzidas. é extensa a lista de "vistas animadas" exibidas, das quais destacamos: "História de um Crime" (Histoire d'un Crime; 1901, 110m, Pathé Frères, realização de Ferdinand Zecca), "Borboleta e Crisálida" (La Crysalide et le Papillon; 1900, 20m, Star Film, de Georges Méliès), "Magia Negra" (Magie Noire. 1902, 30m, Pathé Frères), "O Homem de Quatro Cabeças" (L'Homme de Tetes ou Les Quatre Tetes Embarassantes; 1898, 20m, Star Film, de Georges Méliès), "Retrato Mágico" (Le Portrait Mystérieux; 1899,. Star Film,. de Méliès), e "Vida, Paixão e Morte de Christo" (Vie et Passión du Christ; versão de 1898-1899, da Pathé Frères). O grande impacto era a "Hecatombe da Martinica", que supomos ser a atualidade reconstituída de Ferdinand Zecca para os estúdios da Pathé. Mas o empresário Joseph Felippe afirmava-se autor dessas cenas da catástrofe provocada pela erupção vulcânica que destruiu, no dia 8 de maio de 1902, a cidade de Saint-Pierre, dizendo que de lá saíra dois dias antes da tragédia, retornando de Barbados apenas para a tomada das cenas. Isto é o que ele disse ao jornal "A República" (1.9.1902): "As vistas da hecatombe, umas fixas e outras animadas, foram tiradas 'd'aprés natare', visto como, tendo partido dois dias antes da terrivel erupção volcanica, regressou de Barbados, onde se achava para extrahir as photographias". Há registros da passagem de Joseph Felippe - agora com seu nome grafado José Filippi -, ainda em 1902, em Recife e Maceió, e no ano seguinte, em Curitiba, quando incluia vistas animadas do Rio de Janeiro e de Guaratinguetá (provavelmente filmadas por ele). Torna-se provavel pioneiro da cinematografia no Paraná, ao filmar em Curitiba, no dia 25 de agosto de 1903, o desfile comemorativo do centenário de nascimento do Duque de Caxias. Teria sido também pioneiro no Rio Grande do Sul, onde filmou e exibiu a chegada, no dia 23 de fevereiro de 1904, do senador Pinheiro Machado à cidade de Rio Grande. O exibidor italiano percorreu o Estado do Rio do Grande do Sul e, segundo Glênio Nicola Póvoas, após uma última exibição em Porto Alegre, em 12 de outubro de 1904, "não se tem mais notícia de José Filippi e sua Companhia de Arte e Bioscopo Inglês". Não se tem registro que o exibidor italiano tenha realizado filmagens em Fortaleza.

O Cinematographo é anunciado como uma das atrações do espaço de lazer que o seu proprietário, Arlindo Affonso da Costa, fizera construir à rua Major Facundo, 83, bem próximo ao Passeio Público, sob o nome Recreio Cearense ou Recreio de Diversões, e que se inaugura nesta data, com sorteio de flores, bem servido botequim e a presença da banda de música do Batalhão de Segurança. às 9 horas da noite, do dia 29 de setembro de 1902, um acidente na projeção provoca o primeiro incêndio na história da exibição cinematográfica em Fortaleza: "aconteceu entornar-se uma lamparina de kerosene, que, produzindo explosão, determinou o incendio de parte do apparelho". O espaço de diversão somente é reaberto no sábado, 29 de novembro.

O Mirographo, um equipamento criado pelos franceses Goudeau e Reulos, chega a Fortaleza e instala-se no Theatrinho Iracema, abrindo nessa data suas exibições para o público. O empresário A. Braga anunciava no programa de estréia 30 vistas fixas e 9 vistas animadas. Não se tem a informação da duração da temporada, nem a relação de fitas exibidas.

Como parte das atrações de fim de ano, desenvolve-se em Santa Maria, à rua Senador Pompeu, apresentações das pastorinhas e o brinquedo dos fandangos. Tem-se notícia de que, nos intervalos, realizavam-se exibições de vistas fixas e animadas, sem qualquer outra referência sobre equipamento utilizado, empresário e programação.

O Bioscope, de propriedade da Empreza D'Arte e Bioscope ítalo-Francesa, dirigida por Cezare Menazinne, chega a Fortaleza. instala-se no Theatrinho Iracema e desenvolve uma temporada entre 16 de maio e 23 de junho. São seus grandes sucessos: "Quo Vadis? (Quo Vadis?; 1901, 65m, Pathé Frères, diretor Lucien Nonguet, supervisor Ferdinand Zecca, do romance de Henryk Sienkiewicz), "Cendrillon" ou "A Gata Borralheira" (Cendrillon, 1899, 120m, Star Film, adaptação do conto de Charles Perrault, direção Georges Méliès, com Mademoiselle Bairral no papel título), "Chapelinho Vermelho" (Le Petit Chapeau Rouge; 1901, 160m, Star Film, de Georges Méliès), "Os Sete Castelos do Diabo" (Les Sept Chateaux du Diable. 1901, 260m, 40 quadros, Pathé Frères, diretor Ferdinand Zecca), "A Defesa da Bandeira" (La Defense du Drapeau; 1902, 20 m, cena heróica e de atualidade reconstituída, Pathé Frères) e a "Catástrofe do Balão Pax" (Le Catastrophe du Ballon "Le Pax"; 1902, 20m, Star Film, de Georges Méliès), que mostrava a trágica morte do engenheiro, inventor e aeronauta brasileiro Augusto Severo e do mecânico francês Georges Sachet, na explosão do dirigível "Pax", em Paris, no dia 12 de maio de 1902.

É aberta a temporada do Bioscope, da Empreza D'Arte e Bioscope ítalo-Francesa, mas agora para inauguração de um novo espaço de espetáculos: o Eden Cearense, localizado à rua Major Facundo. O empresário Cezare Menazinne desenvolve suas atividades de exibição, nesse local, entre 24 de junho e 30 de agosto. Nessa fase, Menazinne apresenta também "vistas fixas" feitas em Fortaleza como as que documentavam a Partida do Batalhão de Segurança para Grossos, atualidade que tratava dos incidentes da região em litígio entre os Estados do Ceará e Rio Grande do Norte.

Cinematographo "Fallante" e Bioscope, da Empreza E. Hervet, do francês Edouard Hervet, chegam a Fortaleza e se instalam no Teatrinho Iracema. A empresa anunciava-se também sob a denominação Cinematographo Lumière. Suas atividades são desenvolvidas de 29 de maio até 19 de junho, com absoluto sucesso, o que iria se repetir quando se apresenta no Rio de Janeiro, ainda em 1904, no antigo Teatro Lírico, e em São Paulo, no Teatro Sant'Ana, a partir de 1º de março de 1905. São grandes sucessos de Hervet em Fortaleza:"Ali Babá e os 40 Ladrões" (Ali Baba; 1902, 190m, 12 quadros, Pathé Frères, a cores, de Ferdinand Zecca), "Napoleão Bonaparte" (Napoléon Bonaparte; 1903, 170 m, Pathé Frères, de Lucien Nonguet), "Sansão e Dalila" (Sanson et Dalila; 1902, 140 m, 9 quadros, à cores, Pathé Frères, de Zecca), "Joana D'Arc" (Jeanne D'Arc; 1900, de Georges Méliès, com Gabrielle Rejane), "A Bela Adormecida do Bosque" (La Belle au Bois Dormant; 1902, a cores, Pathé Frères, de Zecca) e "Viagem à Lua" (Voyage dans la Lune; 1902, 285 m), a clássica realização de Georges Méliès. Foi a empresa E. Hervet quem primeiro apresentou em Fortaleza o "cinema fallante", utilizando-se de um "bioscope" produzido pela Gaumont, surpreendendo o nosso público com a sincronização de imagem e som. O agradável efeito do uso de gravações em discos torna notáveis algumas "fitas cantantes" como "Bonsoir, Madame La Lune" (Bonsoir Madame La Lune; 1904, 70 m, Pathé Frères) interpretada por Mercardier, artista do 'Cassino', de Paris. é nessa temporada que aparecem as primeiras fitas a cores, de grande agrado para o público, como os citados "Ali Babá e os 40 Ladrões" e "Sansão e Dalila".

Estréia o Bioscope da Empreza Franco-Brasiliense, em espaço localizado à rua das Trincheiras (atual Liberato Barroso), entre as ruas Formosa (hoje, Barão do Rio Branco) e Senador Pompeu. A empresa permanece nesse local de 11 de setembro ao final do mês. O proprietário A. Meirelles deveria, como fortemente supomos, residir em Fortaleza e anunciava o seu empreendimento como "Franco-Brasiliense" ou "Empresa Franco-Brasileira" como artifício publicitário. O público fortalezense é premiado com cópias a cores de "cenas animadas". Além do já conhecido "Sansão e Dalila" (Sansom et Dalila, 1902, Pathé Frères), surgem duas outras fitas bem-sucedidas: "A Fada Primavera" (La Fée Printemps; 1902, 55 m, fita mágica, Pathé Frères, diretor Ferdinand Zecca) e "Maria Antonieta" (Marie Antoinette; 1904, 175 m, Pathé Frères).

O Bioscope da Empreza Franco-Brasiliense é relançado, em novo local, agora na popular Casa Palhabote, com frente para a rua Major Facundo, 84, e fundos para a rua Formosa. O estabelecimento, após o falecimento, no dia 31 de março desse ano, do seu proprietário e fundador, o lusitano Antonio Dias Pinheiro, passara a pertencer ao Major Júlio Pinto. Nessa nova temporada, a empresa do Sr. A. Meirelles permanece de 5 de outubro até novembro, quando se retira para ceder o espaço a uma temporada da Empresa Pachoal Segreto, e volta a 13 de dezembro, quando retoma suas apresentações.

Estréia o Pantheon Ceroplástico, da Empreza Paschoal Segreto, com destaque para o seu museu de cera, bem como o Bioscope, exibido por seu diretor Afonso Segreto. A empresa instala-se na Casa Palhabote, tornada disponível com a interrupção da temporada da empresa Franco-Brasiliense. A presença da Empresa Paschoal Segreto é um acontecimento em nossa história pelo pioneirismo dos irmãos Paschoal e Afonso Segreto, este último a quem se atribuiu o mérito de ter feito a primeira filmagem no Brasil, a 30 de julho de 1897, quando de bordo do vapor "Brèsil" registrou aspectos da baía da Guanabara e do Rio de Janeiro. Não se divulgava regularmente a programação cinematográfica da Empresa Pachoal Segreto, repetindo-se como grande atração a fita "Maria Antonieta" (Marie Antoinette; 1904, 175 m, 9 quadros, cena histórica, Pathé Frères), já conhecida do público local.

Dentre as atividades típicas do período natalino, a lapinha, que reconstitui com peças miniaturizadas a ambiência que cerca o recém-nascido Jesus Cristo, é um acontecimento comum nas residências que cultuam essa tradição religiosa. A imprensa destaca que, nesta data, na "suntuosa lapinha" da família Amaral, à rua Senador Pompeu, foi também instalado um Kinetoscópio aperfeiçoado "que passará a exibir belas e interessantes vistas".
Inicia-se a temporada do Cinematographo da Empreza Bioscópio. As apresentações são feitas de 3 a 25 de março, no Teatro João Caetano, na esquina da rua das Trincheiras (atual Liberato Barroso) com rua Amélia (depois, Senador Pompeu). São motivos de atração popular: "Sete Castelos do Diabo" (Les Sept Chateaux du Diable; 1901, 260 m, Pathé Frères, de Ferdinand Zecca), a "vista animada" de atualidade "Rendição de Porto Arthur" (Reddition de Port Arthur; 1904, 75 m, Pathé Frères), "A Cendrillon" (Cendrillon; 1905, Pathé Frères, conto de Charles Perrault, direção de Zecca) e "Reino das Fadas" (Le Royaume des Fées; 1903, 30 quadros, 350 m, de Georges Méliès).

O Cinematographo da Empresa Kaurt é apresentado no Teatro João Caetano, de 4 a 15 de abril. Além das cenas de atualidade da Guerra Russo-Japonesa, que tanto interesse despertava à época, são apresentadas realizações de Méliès,como "Joana D'Arc" (Jeanne D'Arc; 1900) e "Chapelinho Vermelho" (Le Petit Chapeau Rouge; 1901), e o inédito, "Venus e Adonis" (Venus et Adonis; 1901, 100m, Gaumont). O proprietário H. Kaurt percorre o sul do Brasil a partir de 1900, faz um circuito a outros países sulamericanos, estreando em Lima, no Peru, em novembro de 1903, e visita o nordeste brasileiro durante o ano de 1906.

Com estréia prevista para o dia 13, depois transferida para 19 de abril, no mesmo Teatro João Caetano, surge a Empresa Norte do Brasil, de propriedade de Joaquim Moura Quineau, agora com um equipamento novo: o Alléthorama, que é anunciado simultaneamente com o "cinematographo fallante". A empresa assegura a qualidade da sua projeção por utilizar motores "Morsing, para a gradação das forças, e Osvaldo Farias, para a fixidez da luz elétrica". As sessões se desenvolveram até fins de maio, com a vista de atualidade "O Balão Santos Dumont" (provavelmente o mesmo "Ascensão do Santos Dumont n° 9", que seria logo depois exibido pela Empreza Franco-Brasiliense), e outras novidades como: "Assassino do Correio de Lyon" (L'Assassinat du Courrier de Lyon; 1904, 122m, Gaumont, diretor Henri Gallet), "Os Dois Rivais" (Les Deux Rivaux; 1904, 76m, Gaumont), e "Paixão e Morte de Christo" (La Vie et la Passion de Jésus-Christ. 1904, 32 quadros, 1.300 m, Pathé Frères, de Ferdinand Zecca e Lucien Nonguet), o "clássico" do cinema religioso, que tem sua primeira exibição no dia 28 de abril.

Retorna o Cinematographo da Empreza Cinematographica Franco-Brasileira, de A. Meirelles, escolhendo como local de exibição o prestigiado Teatro João Caetano. Destacamos dois filmes nessa temporada: "Do Cairo às Pirâmides" (Du Caire aux Pyramides; 1905, 150 m, Pathé Frères) e a obra prima do gênero fantástico "Sonhando com a Lua" (L'Amant de la Lune ou Le Rêve à la Lune. 1905, 300 m, de Ferdinand Zecca e Gaston Velle).

O Cinematographo da Empreza Coelho, de Rufino Coelho Júnior, que se anuncia também como "Cynematographo Parisiense", realiza sessões no Teatro João Caetano, por um um período que se estende até 10 de maio. Procedia de S&aatilde;o Luís, onde cumpriu temporadas em agosto de 1906 e abril de 1907. Há bons filmes em exibição como "A Metamorfose do Rei de Espadas" (La Metamorphose du Roi de Pique; 1903, 30m, Pathé Frères, de Gaston Velle), "Os Mártires do Cristianismo" (Martyrs Chretiens; 1905, 135 m, Pathé Frères, de Ferdinand Zecca) e "Os Moedeiros Falsos" (Les Faux Monnayers; 1907, 145m, Pathé Frères).

Realiza-se, até o dia 30, no theatrinho João Caetano, a temporada da Companhia de Variedades Norte-americana, dirigida pelo sr. Foont. Os espetáculos contavam com os artistas Broker e Denver, Milita e Tarifena, Los Venicios, Cardona e Cerdani, Luise Daysi, os Doretta, César Nunes e o transformista Silva Carvalho. A partir do dia 26, foi introduzido um "Cynematografo", agradando especialmente as vistas animadas "Drama d'Aldeia" e "Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo" (La Vie et la Passion de Jesus-Christ; 1902, Pathé Frères. No final das apresentações a empresa exibia o "Syndocronismo Falante", de Medelli & Cia., que segundo a imprensa não agradou "por falta de nitidez às vistas, como por não se dar perfeita harmonia dos dous aparelhos!", com ressalva para a vista cantante "Fausto", de Gounod.

Histórica chegada do pioneiro Victor DiMaio, com a Empreza Camões e DiMaio, para exibições com um Cinematographo Pathé Frères no Teatro João Caetano. Na programação de Di Maio muitas fitas da Pathé, como "Drama Trágico da Vida de um Jogador" (La Vie d'un Jouer; 1903, 7 quadros, de Ferdinand Zecca), "Tribulações de um Bombeiro" (Tribulations d'un Pompier; 1906, 95 m), "Gato que Custa Morrer" (Le Chat a la Vie Dure; 1906, 105 m) e "O Sonho de Dranem" (Le Rêve de Dranem; 1907, de Ferdinand Zecca, com o cômico Dranem). Di Maio, mesmo depois da temporada, permaneceu em Fortaleza até pelo menos fevereiro do ano seguinte, quando anunciou retirar-se para a Europa e colocou à venda seu cinematógrafo (adquirido, ao que tudo indica, pelo empresário cearense Júlio Pinto). Em abril de 1908, Di Maio escreveu de Paris para o "Jornal do Ceará" anunciando que regressaria a Fortaleza para fundar "uma casa de diversões e recreio para as famílias". Promessa que cumpriu, inaugurando no dia 26 de agosto de 1908, o nosso primeiro cinema fixo: Cinematographo Art-Nouveau, também chamado Cinema Di Maio e Cinema Cearense.

Apresenta-se o Cinematographo da Empreza Oliveira & Coelho, sociedade constituída em Fortaleza, no dia 5 de setembro, pelo exibidor ambulante Rufino Coelho Júnior e o negociante local Antonio Arcanjo de Oliveira. Cada sócio respondia por 6:000$000 (seis contos de réis), sendo a parcela de Rufino integralizada por um Cinematógrafo Pathé Fréres, "seus mecanismos e de iluminação elétrica" e "cinco mil metros de vistas diversas". A sociedade anunciava-se sob a denominação Empreza Cinematographica Grande Oriente e cumpriu temporada no Theatro Iracema, à rua Formosa. Há uma fita de agrado geral: "A Criança Roubada pelos Saltimbancos".

O Cinematographo da Empresa Oliveira & Cia. inicia suas apresentações no Teatro João Caetano. Acreditamos que essa empresa seja resultante da retirada do sócio Rufino Coelho Júnior, quando a primitiva Empreza Oliveira & Coelho é reformulada por Antonio Archanjo de Oliveira e ingressa um novo sócio capitalista.

O Cinematographo, fabricação de Pathé Frères, que se apresenta sob a designação de Cinematographo Familiar, em área fora do centro da cidade, é instalado na Rua Boa Vista, no Bairro do Carmo. Em março, o empresário transferiu seu aparelho para o boulevard Visconde do Rio Branco, no então chamado "calçamento de Messejana" ou bairro da Estação. é possível que este cinema tenha pertencido ao Sr. Alexandre Frutuoso.

Apresentações do Cinematographo New York. A temporada iniciada no Teatro João Caetano, a 6 de fevereiro, compreendia um lote de fitas americanas incluindo um roubo audacioso do trem New York City & California Express, o roubo de um banco em New York e "A Volta de Nova York em 15 minutos" (Around New York in 15 Minutes; 1905, Palley & Steiner), e algumas vistas européias como "Os Gendarmes estão sem Pena" (Les Gendarmes sont sans Pitié, 1907, 78 m, Gaumont). Apesar de não se nomear a essa época os seus proprietários, encontramos em 10 de agosto de 1910 um anúncio que identifica como dono o cidadão João de Deus e Silva, residente em Pacatuba: "Cinema. Vende-se a conhecidíssima empresa New York. Um motor a gasolina força de dois cavalos, dínamo de 21 ampéres, um projetor, quadro de distribuição, fios, lampadas para instalações, um soberbo repertório de fitas de seis mil e tantos metros em pretas e coloridas, onde está incluida, a Paixão de Cristo, última criação da Pathé Frères em 44 quadros. Entrega-se ao comprador funcionando e com boas caixas para embalagem do mesmo aparelho próprias para carregar-se em costa de animais. A tratar com João de Deus e Silva, em Pacatuba. Para informações, em Fortaleza, na Casa Colares, Rua Barão do Rio Branco, n° 44".

Última das empresas de demonstração do cinematógrafo, antes da implantação do primeiro cinema fixo em Fortaleza, a Empresa Fontenelle & Cia. obtém o maior sucesso. Em sua permanência no Teatrinho Iracema, entre 7 de junho a 25 de agosto de 1908, é apresentada uma grande variedade de "scenas" como "Amor de Escrava" (Amour d'Esclave; 1907, 210 m, Pathé Frères, produção Ferdinand Zecca, direção Albert Capellani, com Gabriel Moreau e Darenne Bernard), "Cães Contrabandistas" (Les Chiens Contrabandiers; 1906, 190m, Pathé Frères, produção de Zecca, baseado em "Ramuntcho" de Pierre Loti, cenário André Heuze, realização Lucien Nonguet) e "Pena de Talião" (La Peine du Talion; 1906, 100 m, à cores, Pathé Fréres, produçao de Zecca, diretor Gaston Velle). A empresa estivera, em março de 1908, em São Luís.

O aparecimento do Cinema Cassino Cearense, a 2 de junho de 1909, nos fundos da Casa Palhabote, à rua Barão do Rio Branco, n° 57 (com entrada também pela frente do estabelecimento, à rua Major Facundo n° 64), ocorre através da Empreza Carvalho & Cia., que anuncia como equipamento utilizado o "Stereopticon". Embora essa iniciativa tenha dado lugar, no dia 18 de setembro, ao Cinema Júlio Pinto, podemos incluir o Stereopticon no rol dos exibidores itinerantes. Sua programação foi vasta e diversificada, com fitas francesas, italianas e pelo menos uma atualidade brasileira: "Os Funerais do Doutor Affonso Pena" (1909, produção Marc Ferrez).

Ressurge o cinema itinerante com a Linton South American Company, trazendo como atração o cinema "falante" utilizando o equipamento americano Kinetophone Edison. A temporada de 19 a 23 de março é realizada no Teatro José de Alencar.

O Cinema Rio Branco cede espaço para as apresentações do Kinetophone Elgé, aparelho francês incluindo "vistas falantes". Essa é a última das temporadas ambulantes e estende-se pelo período 7 a 11 de abril, fechando um capítulo em que o cinema ofereceu muitas surpresas, emoções e alegrias para a população cearense.

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[REPRODUÇÃO PERMITIDA INDICANDO OS CRÉDITOS DO AUTOR]

Polytheama e Majestic


Capítulo do livro - "A TELA PRATEADA" - (CIDADE DE FORTALEZA: 1897-1945 - D0 CINEMATÓGRAFO AOS ANOS DE GUERRA), de ARY BEZERRA LEITE [Rua Coronel Jucá, 510. Ap. 303 - 60.170-320 - Fortaleza, Ceará, Brasil]


Após sua primeira visita a Fortaleza, como exibidor ambulante, em 1907, o pioneiro Victor Di Maio escreveu de Paris ao periódico "Jornal do Ceará" (24.1.1908) afirmando que regressaria à capital cearense para "fundar uma casa de diversões e recreio para as famílias". Assim prometeu e assim fez, inaugurando na quarta-feira, 26 de agosto de 1908, o primeiro cinema fixo da cidade: o Cinematographo Art-Nouveau, que se tornou também conhecido como Cinema Di Maio e Cinema Cearense. Este e outros episódios da implantação do mercado cinematográfico na capital do Ceará são narrados em nosso livro anterior, "Fortaleza e a Era do Cinema - Pesquisa Histórica, 1891-1931". Nessa nova narrativa, buscamos aprofundar aspectos do pioneirismo na exibição cinematográfica na cidade de Fortaleza, e renovamos a visão cronológica dos primeiros tempos quando a arte e o vigor da cena muda conquistava legiões de admiradores. A cronologia que se segue é a reafirmação de nossa admiração pelos pioneiros do cinema no Ceará e a transição para os novos tempos dos filmes sonoros.

É inaugurado no prédio da Maison-Art Nouveau, na Praça do Ferreira, o primeiro salão de exibição da cidade: o Cinematographo Art-Nouveau, de propriedade do italiano Victor Di Maio, consagrado depois pela imprensa com a denominação Cinema Di Maio ou Cinema Cearense. Na noite inaugural, com sessões às 19:00 e 20:30 horas, dentre outros filmes foi exibido "As Vítimas do Dever" (Vittima del Dovere), da Ambrosio, de Turim. Foi presença marcante na cidade até 10 de outubro de 1914, com alguns períodos de desativação. Victor Di Maio, pioneiro da exibição no Brasil (8.7.1896) e da filmagem no Brasil (1897), regressou a Fortaleza pobre e doente, em 1926, quando lhe foi dedicada a renda de uma exibição no Cine Moderno.Quatro dias depois, a 21 de abril, morre de um colapso cardíaco, sobre uma mesa do Café Art-Nouveau, no mesmo local onde mantivera o seu cinema.

Surge no popular estabelecimento Casa Palhabote, à rua Major Facundo, 64, o Cassino Cearense, com o aparelho Stereopticon, da Empresa Carvalho & Cia., com o programa: "O Sonho de Dranem" (Le Rêve de Dranem; 1905, 45 m, Pathé, de Ferdinand Zecca), "Estréia de um Ciclista", "A Pulga" (La Purge; 1903, 25 m, Pathé, de Zecca), "Banho Forçado", "A Invenção do Professor Bric-a-Brac", "A Pescadora de Camarões!, "As minhas calças estão descosidas" e "A Alucinação" ou "A Usura pelo Ouro". No dia 18 de setembro de 1909, o Cassino Cearense é reaberto, agora como Cinema Júlio Pinto, marcando o ingresso do ilustre empresário cearense Júlio Pinto no mercado cinematográfico. Na sessão inaugural: "Amado por sua criada" (Aimé pour sa bonne; 1907, 125 m, Pathé, com Max Linder), "O Cultivo do Chá" (Le Thé: Culture, Récolte, Préparation Industrielle; 1909, 155 m sendo 110 a cores, Pathé), "Paixão de Negro", "Chegada do Ministro" e "A Carta a Papai do Céu" (La Lettre au Bon Dieu; 1909, 185 m. Pathé). Manteve-se em atividade até 20 de março de 1920.


Inauguração do terceiro cinema da cidade: o Cinema Rio Branco, na rua Barão do Rio Branco, 71/73, de propriedade de Muratori & Cia., constituídas pelas famílias italianas emigradas para o Ceará: Muratori e Mesiano. Na composição inicial apareciam como proprietários Roberto Muratori e os irmãos Antônio e Henrique Mesiano. Na sessão de abertura do cinema, às 18,30 horas, foram exibidos: "O Delegado está a passeio", "O filtro maldito", "O meio eficaz de amansar a sogra" e "O Filho Pródigo" (L'Enfant Prodigue; 1907, 215 m, Pathé, produção Edmond Benoit-Levy, direção Michel Carré, com Georges Wague, Christiane Mendélys, Gilberte Sergy, Jeanne-Marie Laurent e Henri Gouget). Sua última exibição ocorreu a 21 de fevereiro de 1919.

Pré-inauguração do palco do Cine-Theatro Polytheama, à praça do Ferreira, propriedade da Empresa Rola & Irmão, constituída pelos empresários José e Joaquim de Oliveira Rola. A inauguração teatral esteve a cargo do Grupo Cênico Francisco Santos. Uma segunda abertura do palco, a 1º de julho, esteve a cargo da Companhia Rentini, e, finalmente, a tela, no dia 2 de julho de 1911, com filmes da Pathé Frères, dentre eles "Fedra" (Phedra). O cinema, em 1916, passa ao controle de Luiz Severiano Ribeiro e tem uma segunda fase a partir de 21 de março de 1922, quando é reaberto com o filme "O Dever de Todo Filho" (Every Mother's Son; 1918, 6 atos, Fox-Film Corp., cenário e direção Raoul Walsh, com Charlotte Walker). O Polytheama foi um cinema silencioso que resistiu ao advento do som, permanecendo em funcionamento na principal praça da cidade, com seus filmes mudos, até 20 de novembro de 1938, fechando para ser demolido e dar lugar à construção do Edifício São Luiz.

É inaugurado, na Praça do Ferreira, esquina da Rua Floriano Peixoto com Pedro Borges, o Amerikan Kinema, de propriedade da firma Meirelles & Cia. O filme inaugural foi "Sangue Azul" (Det Blaa Blod; 1912, 4 partes, da Det Skandinavisk-Sussiske Handelshus, de Copenhague, direção de Vilhelm Glückstadt, com Elna Jørgen-Jensen, Robert Schyberg, Gudrun Houlberg e Valdemar Møller). As últimas sessões foram realizadas a 19 de janeiro de 1916, por força de acordo que constituiu o trust de exibição cinematográfica, sob a coordenação de Luiz Severiano Ribeiro.

Surge o Cinema Riche, na Praça do Ferreira, no antigo local do Cinema Di Maio, como primeiro empreendimento de iniciativa de Luiz Severiano Ribeiro, tendo como sócio o capitalista Alfredo Salgado. Na inauguração, às 18:30 e 20:30 horas, foi exibido "Jockey da Morte" (Il Jockey della Morte; 1915, 1.500 metros, da Vay Film, de Milão, com argumento, direção e interpretação do cineasta dinamarquês Alfred Lind, secundado por Miss Evelyn e Trude Nick). A partir de 4 de março de 1916, o Riche é propriedade da firma Ribeiro & Cia. O cinema foi fechado a 11 de novembro de 1921, dois meses depois da abertura, pela Empresa Ribeiro, do Cinema Moderno.

É inaugurado por Henrique Mesiano o Cinema da Estação, no Boulevard Joaquim Távora, 2406, em frente à estação dos bondes da Ceará Tramway, Light and Power Co., exibindo na abertura o filme "Caçadores da Noite". Com uma linha de filmes em que predominavam as produções da Nordisk Films Kompagni S.A., de Copenhague, Dinamarca, esta sala teve curta duração, mas conquistou um bom público.

O Cinema Tiro Cearense, de Henrique Mesiano, começa a funcionar no Passeio Público, tendo como filme inaugural "Dansarina" (Balletens Datter; 1912, 1.600 metros, 5 partes, Nordisk Film Kompagni, diretor Holger-Madsen, com Rita Sacchetto, Svend Aggerholm, Torben Meyer, Olug Billesborg e Christian Schrøder). Funcionou por menos de um ano.

Por iniciativa do Círculo de Operários e Trabalhadores Católicos, idéia materializada pelo padre Guilherme Vaessen, é instalado no teatro dessa agremiação o Cinema São José, na Praça Cristo Redentor. Foi o primeiro cinema criado pela Igreja Católica no Ceará e adotava o critério de separar homens e mulheres, em duas alas. Funcionou até o início da década de 40.

Inaugura-se o Cine-Theatro Majestic-Palace, o mais luxuoso salão da época, construído pelo capitalista Plácido de Carvalho em imponente prédio, com a destinação para um futuro cinema a ser explorado pela firma Ribeiro & Cia., uma associação de Luiz Severiano Ribeiro com o capitalista Alfredo Salgado. é o terceiro cinema, após o Polytheama e o Riche, da Empresa Ribeiro. O palco foi inaugurado, a 14 de julho, com o histórico espetáculo da transformista italiana Fátima Miris, que marcou uma época na cidade. A tela teve sua inauguração no dia 27 de julho, com o filme italiano "Amica" (Amica; 1916, 1.212 metros, Cines, de Roma, diretor Enrico Guazzoni, com Leda Gys, Amleto Novelli, Augusto Mastripieri, Nella Montagna e Augusto Porrioli). Foi aparelhado para cinema sonoro, pelo sistema Vitaphone, a 28 de abril de 1932, e lançou o Movietone, a 3 de maio de 1932. Um dos mais queridos cinemas da história da cidade foi vítima de dois incêndios: o primeiro, a 4 de abril de 1955, destruiu o edifício Majestic-Palace, na Praça do Ferreira, sob o qual existia o amplo hall e sala de espera do cinema. O Cinema sobreviveu e passou a ter entrada pelos fundos (rua Barão do Rio Branco), até que o segundo incêndio, iniciado às 2 horas da madrugada do dia 1º de janeiro de1968, destruiu por completo o belíssimo salão cinematográfico.

O Cinema Moderno, na Praça do Ferreira, é inaugurado pela Empresa Luiz Severiano Ribeiro, com o filme "Carmen" (Carmen; 1918, 72 minutos, 8ª versão da novela de Prosper Merimée, Projektions-A. G. Union, diretor Ernst Lubitsch, com Pola Negri, Harry Liedtke, Leopold von Ledebur, Grete Diercks, Wilhelm Diegelmann, Heinrich Peer, Margaret Kupfer, Sophie Pagay, Paul Conradi e Max Kronert). A sala adquiriu a preferência do público seleto da cidade e teve o privilégio de lançar o cinema sonoro, pelo sistema Vitaphone, no dia 19 de junho de 1930. Instalou o Movietone a 19 de junho de 1932, sendo o segundo em Fortaleza a ter esse equipamento. Foi fechado no dia 21 de maio de 1968, quando o seu prédio foi vendido ao Grupo Edson Queirós.

Pequenos cinemas são instalados em Fortaleza. Em 1922, o Cine-Theatro Pio X, mantido pela Ordem dos Capuchinhos, na Avenida Duque de Caxias com rua Barão de Aratanha, inicia suas exibições cinematográficas e inaugura o seu palco a 3 de fevereiro de 1923. Em 1924, surge um pequeno cinema na Praia do Peixe (depois Praia de Iracema), o Cine Beira Mar. Em 1925, o Centro Artístico Cearense, à rua Tristão Gonçalves, 338, começa suas atividades como cinema e, a 16 de dezembro de 1931, festeja a inauguração do seu palco para apresentações teatrais. No dia 2 de dezembro de 1925, o Recreio Iracema, uma iniciativa da Empresa de Diversões Artísticas, de Antônio Capibaribe, inaugura a sua tela cinematográfica exibindo "Último Varão sobre a Terra" (The Last Man on Earth; 1924, Fox Film Corp, EUA, de Jack Blystone, estória de John D. Swain, com Earle Fox, Grace Cunnard, Gladys Tennyson, Maryon Aye e Clarissa Selwynne), anunciado como um filme com Earle Fox e 1.000 mulheres. O Recreio Iracema, localizado no Boulevard Visconde de Cauípe, 1023, passou, em 1931, a denominar-se Cine Benfica.

Em 1927, a União de Moços Católicos, à rua Barão do Rio Branco, 1826, faz funcionar o cinema que se populariza como Cine União. No mesmo ano é inaugurado o Cine Grêmio Dramático Familiar, na rua Visconde do Rio Branco, 2046, como desdobramento do famoso espaço teatral em que foram lançadas as criações de Carlos Câmara. Em 1930, duas instituições de prestígio na cidade, a Associação dos Merceeiros e a Associação Fênix Caixeiral, instalam salas de cinemas em suas sedes. O Cine Fênix instala-se a 26 de junho de 1930, à rua Guilherme Rocha, esquina com rua 24 de maio, exibindo a película "Gente de Circo" (Circus Rockies; 1928, Metro-Goldwyn-Mayer, diretor Edward Sedgwick, com Karl Dane, George K. Arthur e Louise Lorraine). O Cine Merceeiros, à rua Major Facundo, 421, é inaugurado a 1º de novembro de 1930, com o filme "A Ver Navios" (Why Sailors Go Wrong; 1928, Fox Film, diretor Henry Lehrman, com Sammy Cohen, Ted McNamara e Sally Phipps). Ainda em 1930, no sábado 6 de setembro, a cidade assistia à inauguração do Cine Parochial, de propriedade das associações religiosas da Catedral, e instalado à rua Coronel Ferraz no prédio da Escola Jesus, Maria e José. O Parochial foi inaugurado com o filme "O Vale Encarnado" (The Crimson Canyon; 1928, Universal Pictures, diretor Ray Taylor, com Ted Wells, Wilbur Mack, Lotus Thompson e Buck Connors), e tornou-se cinema sonoro, a 18 de novembro de 1933, quando exibiu: "O Cinemaníaco" (Movie Crazy; Harold Lloyd Productions, 1932, diretor Clyde Bruckman, com Harold Lloyd e Constance Cummings). No dia 23 de janeiro de 1931, é aberto o Cine Luz, à rua General Sampaio, 526, por iniciativa dos empresários Bernardino Proença Filho e José Bezerra da Silva, com a exibição de "A Dama Escarlate" (The Scarlet Lady; da Columbia Pictures). Ainda em 1931, aparece mais um cinema de bairro: o Cine São Gerardo. Fechando esse primeiro capítulo da história do cinema exibidor na cidade de Fortaleza, surgem, ainda em 1932, dois outros cinemas: o Cine Circo, na Praça do Otávio Bonfim, e o Cine Popular, na rua Senador Pompeu, na denominada Praça de Pelotas, em prédio depois destruído para ampliação da Assistência Municipal de Fortaleza (Instituto José Frota). A inauguração do Cine Popular ocorreu no sábado, 9 de julho de 1932, com o filme "Sede de Amor" (Die Lady ohne Schleier; UFA, diretor Gustav Molander; com Gösta Eckmann, Lil Dagover, Karin Swanstroem, Brita Appelgreen e Stina Berg).

Interior do Cine Majestic

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