1907 : VICTOR DI MAIO CHEGA AO
CEARÁ
O tempo do cinema ambulante estava chegando ao fim. De fato, 1907, seria o último ano da fantástica fase dos cinematógrafos itinerantes, quase sempre empresados por emigrantes europeus. E nesse ano aportou em nossa terra o pioneiro da exibição cinematográfica no Brasil: Victor Di Maio.
Sua primeira iniciativa, com a firma Camões & Di Maio, foi utilizar o teatrinho João Caetano, existente desde 1905 na esquina da rua das Trincheiras (atual Liberato Barroso) com rua Senador Pompeu. A presença de Di Maio em Fortaleza, é registrada, pela primeira vez, pelo “Jornal do Ceará”, edição de 17 de setembro de 1907:
CINEMATOGRAPHO
Esteve hoje no escritório de nossa folha o sr. Victor di Maio, que vem
exibir nesta capital, no teatrinho João Caetano, o seu moderno cinematographo
construído pelos conhecidos fabricantes Pathé Frères, de
Paris.
Pelos elogios que veem de longe, é de crer que a exibição desse moderno
aparelho, de propriedade da empresa Camões & di Maio, de que o sr. Victor
faz parte, irá agora, dar muito ao nosso público, atenta à nitidez de suas
inúmeras vistas.
O seu primeiro espetáculo será sábado próximo.
Um ensaio do moderno equipamento Pathé, para a imprensa e franqueada ao público, no dia 19, era assim comentada pelo “Jornal do Ceará” (20.9.1907):
CINEMATOGRAPHO
Conforme nosso aviso de ontem, a empresa cinematographica dos srs. Camões
e di Maio fez, no teatrinho João Caetano e a título de ensaio, a exibição de seu
moderníssimo aparelho, construido na conhecida fábrica da Pathé Frères, de
Paris.
Os srs. Camões & di Maio compreenderam que melhor reclamo não poderão
fazer do que esse que a multidão enorme que ontem se achava no João Caetano lhes
vai fazer expontaneamente.
O programa organizado é o mais atraente que pode desejar. Entre as fitas
a exibir destaca-se a “Mala de Ouro” ou “A Vida de um Pintor”, que tanto sucesso
tem alcançado na Europa.
A temporada alcançou êxito, com a imprensa sempre registrando a enorme afluencia de público, o que atestava a excelência do cinematógrafo. Dos filmes exibidos, destacaram-se as realizações do mestre cineasta francês Ferdinand Zecca: O Sonho de Dranem (Le Rêve de Dranem), 1907, de Ferdinand Zecca, com Dranem; O Colchão (Le Matelas de la Mariée), 1906, produzido por Zecca; Ali Babá e os 40 Ladrões (Ali Baba), 1901, de Zecca; A Vida e Paixão de Cristo (La Vie et la Passion de Jésus Christ), 1902-1905, de Ferdinand Zecca e Lucien Nonguet - a clássica versão da vida de Cristo que se tornou exibição anual obrigatória, usualmente na semana santa, nos cinemas brasileiros.
Victor Di Maio ostentava as honras de ter sido o verdadeiro lançador do cinema no Rio de Janeiro, quando, no dia 8 de julho de 1896, instalou na rua do Ouvidor nº57 um projetor dos irmãos Lumiére, que era anunciado sob o nome de “omniographo”. Fora também Di Maio responsável pela instalação de vários cinemas em São Paulo. Na capital paulista sucederam-se os empreendimentos: 1899, o Salão New York; 1900, o Salão Paris; 1901, o Biógrafo Americano; 1901, o Paulicéa Phantástica; e em 1902, o Cyne-Phone. Empresário de cinema, com passagem em inúmeros Estados brasileiros, como o Rio Grande do Sul e a Bahia, Victor Di Maio vinha atraído pela terra e pelo povo, decidido a desenvolver um projeto mais duradouro.
Encerrada a temporada da empresa Camões & Di Maio, encontramos em jornais de 17 de fevereiro de 1908, o seguinte anúncio comercial:
VICTOR DI MAIO, oferece à venda,
por dever retirar-se para a Europa, um aperfeiçoado “Cinematographo”, do famoso
fabricante Pathé Fréres, de Paris, com luz elétrica e luz oxslito.
Viajando para a Europa, escreve com freqüência para os novos amigos que deixara em Fortaleza, anunciando que iria voltar, para aqui residir e instalar um cinema fixo. “Jornal do Ceará” (21.4.1908), divulga uma de suas cartas:
CASA DE DIVERSÕES
De Paris nos escreve o sr. Victor di Maio, comunicando dever achar-se em
breve nesta capital, onde pretende fundar uma casa de diversões e recreio para
as famílias.
O sr. Maio segundo a sua expressão trará consigo “una quantito de novitá
che ha pat o acquisito in Europa e propriamente in Milano, Parigi, Berlino,.
Vienna, etc.”
Di Maio escolheria para instalar o seu primeiro cinema fixo em Fortaleza, um dos mais famosos estabelecimentos comerciais da Praça do Ferreira, a Maison Art-Nouveau, localizada na então chamada rua do Fogo, na esquina das atuais ruas Major Facundo e Guilherme Rocha. O notável pioneiro atraiu multidões ao seu Cinematógrapho Art-Nouveau ou Cinema Di Maio, e nesse mesmo local viria a falecer.
1908 : O PRIMEIRO CINEMA FIXO DE
FORTALEZA-
E Victor Di Maio voltou para Fortaleza, cumprindo sua promessa. Na quarta-feira, 26 de agosto de 1908, era aberto o “Teatro Art-Nouveau”, com o Cinematographo da Empresa Victor Di Maio, divulgando-se sob três denominações: “Cinematógrapho Art-Nouveau”, “Cinema Di-Maio” e, também, a partir de 1909, “Cinema Cearense”.
A boa nova da próxima inauguração ocupa as páginas de todos os jornais da cidade:
CINEMATÓGRAPHO
Amanhã será inaugurado, no “Theatro Art-Nouveau”, o aperfeiçoado aparelho
cinematographico do sr. Victor di Maio.
O empresário pretende dar representações diárias às 7 e 8 1/2 horas da
noite, matinées aos domingos e dias festivos, às 2 e 3 1/2 da
tarde.
O programa da função inaugural foi admiravelmente
organizado.
Agradecemos o convite que nos veio pessoalmente fazer o
empresário.
(Unitário,
25.8.08)
-- - -
THEATRO ART-NOUVEAU
Amanhã, nesse teatrinho, ultimamente preparado e arranjado com gosto,
realizará sua primeira função o
cinematógrapho DiMaio.
O aparelho, conforme tivemos ocasião de observar é um dos melhores que
temos visto nesta capital e o seu proprietário dará sessões diárias, com fitas
ainda não exibidas aqui.
Para a 1a. Sessão d'amanhã estão convidadas algumas pessoas, começando
depois dessa a sessão franqueada ao público.
O programa, que temos à vista é variado e atraente.
(A República,
25.8.08)
- - -
THEATRO ART-NOUVEAU
Com esplendido programa inaugurar-se-á amanhã o aperfeiçoado
cinematographo da “Maison Art-Nouveau”.
(Jornal do Ceará, 25.8.08)
- - -
DIVERSÕES
É hoje definitivamente a estréia do cinematographo DiMaio no teatrinho
“Art-Nouveau”.
O programa é atraente e a luz firme como tivemos ocasião de
observar.
(A República, 26.8.08)
- - -
DIVERSÕES
Estreiou ontem no teatrinho “Art-Nouveau”, o aparelho cinematográphico da
empresa Victor di Maio.
Realizaram-se duas funções: uma das 7 às 8 1/2 para a imprensa e famílias
convidadas, e outras das 8 1/2 às 10 1/2, franqueada ao público, que encheu
literalmente o pequeno recinto do teatrinho. As fitas exibidas agradaram muito,
mas o calor foi excessivo apesar dos ventiladores.
O aparelho funcionou regularmente, sendo considerado de primeira
ordem.
Com os melhoramentos que a empreza pretende ali introduzir o
“Art-Nouveau” incontestavelmente virá a ser a “great attraction” de
Fortaleza.
(A República, 27.8.08)
- - -
CINEMATOGRAPHO
Como estava anunciada, realizou-se a inauguração ontem do aperfeiçoado
aparelho cinematográfico da “Maison Art-Nouveau”, competentemente dirigido pelo
snr. Victor di Maio.
As fitas exibidas foram as mais belas possíveis e muito agradaram à
numerosa assistencia.
(Jornal do Ceará, 27.8.08)
- - -
A personalidade de Di Maio é enaltecida. A imprensa refere-se a ele como “simpático sr. Di Maio”, e a qualidade de sua programação cinematográfica é destacada na alusão ao fato de que “as fitas caprichosamente escolhidas pelo sr. Victor di Maio, são tentadoras, empolgantes.”
Dentre os filmes iniciais do seu Cinema estão: As Vítimas do Dever (Vittima del Dovere),
1906, 42 metros, da Ambrosio de Turim; La Cigarette di Madama (La Sigaretta di
Madama), 1907, da Fratelli Trancone, de Nápoles, dirigida por Roberto Troncone;
Il Colmo della Distracione, da Itala Film, de Turim; La Sainte Theodule (La
Santa Theodula), 1908, da Rossi & C., de Turim; Conquistatore Castigato; O
Guarda na Ratoeira (L’Agent pris au Piège), 1906, 30 metros, cômica da Pathé
Frères; e Les Grandes Manoeuvres (Alle Grandi Manovre), 1907, 140 metros, da
Rossi & C., de Turim.
O êxito do público e de crítica é evidente. Diz “A República” (14.9.08):
MAISON ART-NOUVEAU
Ao Cinematographo DiMaio, ali instalado, tem afluido o público,
compensando deste modo os sacrifícios que tem feito a empresa para tornar o
teatrinho agradável. As vistas exibidas são de fato, muito interessantes, e de
acordo com o programa estabelecido muda às 4as. e sábados.
Em setembro, além dos filmes, apresentava-se no palco a atriz e cantora Victorina Cesana.
No mês seguinte, Di Maio viaja mais uma vez, e com promessas para o
público:
O Sr. DiMaio segue amanhã afim de trazer novas atrações e um motor de
mais força para iluminação completa de todo o edifício quer interna, quer
externamente.
(A República, 30.10.08)
Há coincidência nas notas da imprensa quando ressaltam o empenho, a simpatia, o sacrifício do pioneiro. Por freqüente essa linha de apreciação de sua personalidade e seu trabalho, leva-nos a desenvolver também extrema simpatia por tudo que fez em nossa terra. Vejamos a notícia sobre o seu retorno a Fortaleza:
DIVERSÕES
Do Rio de Janeiro, chegou no
“Olinda”, o sr. DiMaio, que acaba de fazer, naquela capital, um contrato com o
representante da Casa Pathé Fréres, para a remessa, por todos os vapores, de
fitas cinematographicas de maior sucesso em todos os Estados, principalmente na Capital
Federal. As seções de fitas novas serão aos domingos e 5as. Feiras, fazendo
parte das do último dia as exibidas no 1º, compondo-se por conseguinte, a seção
de onze fitas.
O sr. DiMaio tem procurado agradar ao nosso público, que deve
corresponder ao sacrifício que faz aquele cavalheiro.
Por esses dous dias, enquanto se limpa o aparelho, não haverá exibições
cinematographicas, inaugurando-se com fitas novas quinta-feira
próxima.
(A República, 15.12.08)
E o ano de 1908, primeiro de existência do Cinema Di Maio, assinala uma
série de sucessos, notadamente filmes franceses e italianos, e até mesmo a
primeira realização brasileira de repercussão popular, “A Mala Sinistra”. São
exibições desse empreendimento, filmes como: “Elétrico Hotel” (Hotel Electrico), 1908,
150 m, Pathé, de Segundo de Chomón, com Julienne Mathieu. A Letra do Amor (La
Lettera d'Amore), 1908, 138 m, Rossi & C., de Turim. Um Baile de Máscara
(Ballo Mascherato), 1908, 162 m, Societá Anonima Ambrosio, de Turim. As Vias de
Acesso ao Monte Banco (Nouvelles
Vois d’Accès au Mont Blanc), 1908, 100 m, Pathé Frères. Uma Boa Farsa (Una Buona
Farsa), 1907, 60 m, Rossi & C., de Turim. La Sainte Theodule (La Santa
Theodula), 1908, da Rossi & C., de Turim. O Dia do Ordenado ( Jour de Payé),
1906, produção de Ferdinand Zecca. Caça ao Hipopótamo (Chasse à l'Hippopotame
sur le Nil Bleu), 1908, natural, de Alfred Machin. A Fonte da Mocidade (La
Fontaine de Jouvence), 1907, Gaumont, de Roméo Bosetti. O Guarda na Ratoeira
(L’Agent Pris au Piège), 1906, 30 m, da Pathé. Um Duelo no Tempo de Richelieu
(Un Duel sous Richelieu), 1908, 140 m, Le Film d’Art, histórico, de André
Calmettes, com Henry Krauss. O Hábito não Faz o Monge (L’Habit ne Fait Pas le
Moine -ou- Le Fabricant de Diamants), 1908, 160 m, de Georges Méliès. Francesca
de Rimini (Francesca da Rimini), 1908, 310 m, de Comerio L., de Milão, de Mario
Morais). História Russa (Storia Russa), 1906, 257 m, da Ambrosio & C., de
Turim. Os Ladrões da Igreja (Ladri Sacrileghi), 1908, 235 m, de Rossi & Co.,
de Turim. O Infiel (L'Infidéle), 1907, 201 m, Gaumont. “Um Miserável” (Le
Chemineau), 1905, 110 m, Pathé, drama de Albert Cappelani, adaptação livre do
romance “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. A Rival (La Rivale), 1908, 160 m, da
Cines, de Roma. Os Salteadores da Calabria (Les Brigands de la Calabrie), 1908,
260 m, cena dramática da Pathé. A Mala Sinistra (1908, produção da
Photo-Cinematographia Brasileira, do Rio de Janeiro, e Labanca Leal & Cia.),
de Marc Ferrez e fotografia de Júlio Ferrez, reconstituição do crime real em que
o assassino Miguel Traad esquarteja o cidadão Elias Farah, ocultando o cadáver
numa mala que pretendia lançar ao mar.
Em junho de 1909, o Cinema Di Maio, introduziu alguns melhoramentos e instalou um novo motor de doze cavalos de força. Há todavia pequenas dificuldades para o pioneiro. Faz apelo ao público para que se evite fumar no cinema. E a imprensa pede para que o empresário evite lançar as águas servidas na rua Municipal (atual rua Guilherme Rocha). Desses problemas é que trata a nota:
Pede-nos o digno empresário
DiMaio que encareçamos aos frequentadores dessa casa de espetáculo o pedido que
por diversas vezes temos formulado destas colunas: não incomodarem as exmas.
famílias com a detestável fumaça de seus cigarros.
É um justo pedido que esperam ser atendidos pelos habitués daquele
teatrinho.
Agora apelamos também para o sr. DiMaio, no sentido de que faça cessar o
péssimo costume de desviarem as águas servidas do motor para a coxia da rua
Municipal. Esse abuso trás como consequencia o se enlamearem os vestidos das
senhoras na ocasião da passagem para a sala de espetáculos.
(A República,
6.8.09)
Surgem também para o empresário os problemas de ordem financeira e pendências legais. Na coluna “Notas Forenses” (A República, l5.9.09), descobrimos um registro desta natureza:
1a. VARA CRIMINAL
1º Cartório. Escrivão Feijó. Pelo dr. Juiz substituto foi proferida
sentença na ação sumária movida por A. Ribeiro & Cia., contra Victor DiMaio
para pagamento da quantia de 198$300, sendo os autores julgados carecedores de
ação, por absoluta falta de provas.
Enquanto sofria pressões, oempreendedor acumulava sucessos, com filmes como “A Tosca” (Tosca), realização francesa da Le Film d’Art, 1909, do drama de Victorien Sardou e ópera de Giacomo Puccini, dirigido por André Calmettes, com famosos artistas franceses: Charles LeBargy, René Alexandre, Cécile Sorel e Charles Mosnier. No lançamento, o filme teve acompanhamento musical por orquestra regida pelo maestro Luigi Maria Smido, personalidade que se integrou à vida cearense. “A Tosca” teve destaque especial:
A TOSCA
A “Tosca”, a soberba “film” artística que a empresa Di-Maio exibirá
amanhã no “Cinema Cearense” é, sem exagero, a mais bela fita cinematográfica que
vem ao Ceará.
A tragédia, já por si, era bastante conhecida e apreciada, mesmo entre
nós, e foi uma das peças que tornaram célebre o grande dramaturgo francês
Victorien Sardou. Se dissermos agora que a sua interpretação, para a obtenção
dos “cliches” cinematographicos, foi confiada a artista do mérito real de
Charles LeBargy, Alexandre, e Celine Sorel, da “Comédie Française”, e Mosnier,
do “Renaissance”, teremos garantido o enorme êxito que a fita alcançará amanhã e
nas noites subsequentes.
Os notáveis artistas franceses souberam, com efeito, emprestar o máximo
brilho à tragédia de Sardou.
LeBargy, o célebre ator da “Comédie”, o mais puro interprete da língua
francesa, apresenta-nos na “Tosca”, no papel antipático de Scarpia, o tirano
italiano. Céline Sorel faz a protagonista. Mosnier e Alexandre representam,
respectivamente, Mario Caravadosi e
Angelotte.
O digno maestro Luigi Smido tem ensaiado constantemente uma boa
orquestra, que tocará durante a projeção da esplendida fita, diferentes partes
da ópera “A Tosca”, original de Puccini.
(A República, 15.9.09)
Quanto maior o sucesso, mais fortemente se desenvolve uma guerra não declarada a Victor Di Maio. A iniciativa de trazer uma troupe artística, do Rio de Janeiro, é condenada em panfletos distribuídos na cidade. O importante periódico “A República” vem em defesa do pioneiro, a quem chama de “infatigável empresário”:
CINEMA CEARENSE : TROUPE
ARTÍSTICA
O infatigável empresário sr. Victor DiMaio há despendido o melhor dos
seus esforços no intuito de proporcionar ao público desta capital agradáveis
distrações. Foi ele quem primeiro teve a idéia de fundar em Fortaleza uma casa
de diversões permanentes, montando com esmero na “Maison Art Nouveau” um
excelente aparelho cinematográphico, que tem feito as delícias dos “habitués”
daquele aprazível centro.
Agora mesmo, prosseguindo no seu louvável afan, acaba de contratar no Rio
de Janeiro, onde se acha presentemente, uma troupe artística, destinada a
exibir-se no “Maison” durante os intervalos dos cinematógraphos, que já vão se
tornando insuportáveis, cabulosamente insípidos.
O sr. DiMaio certificou-se de que o povo anseia por novos gêneros de
divertimentos, por outras sensações menos detestáveis, e procurou
satisfaze-los.
Entretanto, surgiram os cartões caricatos profligando o procedimento do
digno empresário do Cinema Cearense em alarmantes boletins distribuídos sábado,
profusamente, nesta capital.
Propalam os descontentes, porventura invejosos, que a Fortaleza “está
ameaçada de ser invadida pelos maiores inimigos da moral pública e do sucego
familiar - os cafés cantantes, que tem sido, em todos os centros civilizados, o
meio mais barato e pernicioso de corrupção dos moços e da sociedade pela
exibição de cenas indecororosas”.
Isto posto, o boletim
espalhafatoso de sábado não produzirá o efeito desejado pelos seus anônimos
autores e, ao contrário, para a “Maison” convergirão, então as simpatias do
nosso público da família cearense.
Ao sr. DiMaio felicitamos
pelo seu novo empreendimento.
(A República,8.10.09)
Dias depois, temos notícias da chegada e estréia da “troupe artística” trazida pela preocupação inovadora e promocional::
TROUPE ARTÍSTICA
A bordo do “Maranhão”, regressou hoje do Rio de Janeiro o infatigável
empresário do simpático Cinema Cearense, sr. Victor Di-Maio. Este estimável
cavalheiro veio acompanhado de troupe artística de que acaba de contratar na
Capital do país para gaudio dos habitués da sua aprazível casa de diversões na
Praça do Ferreira.
Compõe o grupo os afamados artistas Francisco Jorge, barítono, Pedro
Galhardo, baixo cantante, Iracema Bastos, cançonetista cosmopolita, e o maestro
José Zeneira.
A estréia da troupe será amanhã com um programa verdadeiramente
esplendido, conforme afirma o sr. DiMaio.
Sabemos que o sr. DiMaio vai praticar uma ação digna de louvor:
distribuirá o produto do espetáculo de amanhã em esmola ao Asilo de Mendicidade
desta cidade, em regozijo pelo completo restabelecimento do sr. Cel. Guilherme
Rocha, Intendente Municipal.
(A República,
22.10.09)
Fica evidenciado pelos jornais que o empresário tinha opositores tenazes, dispostos até a atos de sabotagem. Na estréia da citada Troupe Artística, cuja renda de 200$000 foi entregue ao tesoureiro do Asilo de Mendicidade, foi constatada uma tentativa criminosa:
Na primeira sessão houve uma
parada do motor devido a terem se esquentado os bronzes e o cilindro por falta
d'água.
Algum perverso, no interesse de prejudicar o sr. DiMaio introduziu ou
mandou por no cano de transmissão d'água para o motor, um tubo de ferro que
impedia a saída d'água para o aparelho.
Além da inaudita perversidade a mão criminosa, visando prejudicar a
empresa, poderia ocasionar vítimas no grande público ali reunido, se o motor não
fosse parado a tempo de evitar uma explosão.
A polícia deve sindicar d'esse fato.
(A República, 25.10.09)
Di Maio viajava freqüentemente ao Rio de Janeiro em busca de novas
atrações. Em dezembro de 1909, pelo vapor “Manaus”, viajava para a capital
brasileira. Retornou com novos contratos e novidades em filmes, dentre os quais
a nova produção dos estúdios americanos, e mais outro êxito de bilheteria do
cinema brasileiro, “Os Estranguladores”. Desta fase são: Macbeth (Macbeth, Shakespeare's Sublime
Tragedy; The Vitagraph Co. of America, 1908, 600 metros, colorido, de Stuart
Blackton); Clube dos Suicidas (Suicide Club; American Mutoscope & Biograph
Co., 1909, 318 pés, de David W. Griffith, fotografia de Billy Bitzer e Artur
Marvin, da estória de Robert Louis Stevenson, com Arthur Johnson, Mack Sennett,
Charles Craig, John Compson, Owen Moore, Eddie Dillon, Tony O’Sullivan e Violet
Mersereau). Vingança de um Bôbo (Fool's Revenge; American Mutoscope &
Biograph Co., 1909, 1.000 pés, de Griffith, fotografia de Bitzer, da novela de
Victor Hugo - Le Roi S’Amuse, com Marion Leonard, Owen Moore, Florence Barker,
Linda Arvidson, Vivian Prescott, John Compson, Fred Mace e Mack Sennett).
Tristes Resultados de uma Explosão -ou- Caminho do Homem (Way of Man; Biograph
Co., 1909, 986 pés, de Griffith, fotografia de Bitzer, com Mary Pickford,
Florence Lawrence, Arthur Johnson, Gladys Egan, Kate Bruce, Mack Sennett, James
Kirkwood e Charles West). Leather Stocking (Leather Stocking, Mutoscope Biograph Co., 1909,
996 pés, baseado em “O Último dos Moicanos”, de Fenimore Cooper, direção de
Griffith, fotografia de Bitzer e Marvin, com James Kirkwood, Linda Arvidson,
Marion Leonard, Mack Sennett, Billy Quirk, Vernes Clarges, Owen Moore e Adele De
Garde). Arrependimento - ou- O Homem e a Mulher (The Man and the Woman; 1908,
776 pés, Biograph Co., de Griffith, fotografia de Marvin e Bitzer, com Linda
Arvidson e Frank Gebhardt). A Volta do seu Filho (The Son’s Return; Biograph
Co., 1909, 993 pés, de Griffith, estória de Guy de Maupassant, fotografia de
Marvin e Bitzer, com Mary Pickford, Charles West, Tony O’Sullivan, Edwin August,
Mack Sennett, Clara T. Bracey e Billy Quirk).O Visitante de sua Mulher (His Wife's Visitor; Biograph Co., 1909, de
Griffith, com Mary Pickford e Billy Quirk). O Amante da Senhora Jones (Mrs.
Jone's Lover; Mutoscope Biograph Co.,1909, 3 atos, 8 quadros,467 pés, de
Griffith, fotografia de Bitzer, com John Compson, Florence Lawrence, Dorothy
Bernard, Tony O’Sullivan e Mack Sennett). Regeneração de um Ébrio (The
Drunkard's Reformation; American Mutoscope & Biograph Co., 1909, 983 pés, de
Griffith, fotografia de Marvin e Bitzer, com Arthur Johnson, Linda Arvidson,
Adele De Garde, Mack Sennett, Florence Lawrence e Herbert Yost). Amores de uma
Tribo de Índios (The Indian Runner’s Romance; Biograph Co., 1909, 994 pés, de
Griffith, fotografia de Bitzer, com James Kirkwood, Owen Moore, Marion Leonard,
Mary Pickford e Arthur Johnson). O Broche Partido (The Broken Locket. Biograph
Co., 1909, 999 pés, de Griffith, fotografia de Bitzer, com Henry B. Walthall,
Billy Quirk, Frank Powell, Mack Sennett, Mary Pickford, Lottie Pickford, Arthur
Johnson, Marion Leonard e Del Henderson). A Guerrilha (The Guerrilla; American
Mutoscope & Biograph Co., 1908, 898 pés, de Griffith, fotografia de Bitzer e
Marvin, com Arthur Johnson, Mack Sennett, Herbert Yost, Dorothy West, Harry
Salter e Harry Myers). A Renúncia (The Renunciation; Biograph Co., 1909, 982
pés, de Griffith, fotografia de Bitzer e Marvin, com Mary Pickford, Arthur
Johnson, James Kirkwood, W. Chrystie Miller, Billy Quirk, Wilfrd Lucas, Harry
Salter e Edwin August). Conspiração de um Cardeal (The Cardinal’s Conspiracy
-ou- Richelieu; Mutoscope Biograph, 1909, 1.000 pés, de Grifith e Frank Powell,
fotografia de Bitzer, com Frank Powell, Florence Lawrence, Linda Arvidson, Edwin
August, Mack Sennett, Mary Pickford, Harry Salter, Owen Moore, Kate Bruce e
Thomas H. Ince).Vila Solitária (Lonely Villa; Biograph Co., 1909,750 pés, de
Griffith, fotografia de Billy
Bitzer, com Marion Leonard, Robert Harron, Owen Moore, Mary Pickford, Adele de
Garde, C. H. Mailes, James Kirkwood, Clara T. Bracey, Gladys Egan e Mack
Sennett). Os Estranguladores (Photo Cinematographia Brasileira, 1908,
film d'art brasileiro, produzido por José Labanca e Antonio Leal, dirigido
por Francisco Marzullo, com
Francisco Marzullo, João Barbosa, João de Deus e Eduardo Arouca). Sucesso de
bilheteria, este último filme nacional, a exemplo de “A Mala Sinistra”,
reconstituia um assasinato, protagonizado pelos emigrantes Rocca e Carleto, na
rua da Carioca, no Rio de Janeiro.
As viagens constantes ao sul do país, que se credita ao pioneiro empresário, também determinavam ocasionais fechamentos do seu cinema. Em 1912, tendo como secretário o sr. Manoel Balleroni, reabriu o cinema, em noite festiva de 7 de setembro. O seu retorno ao Ceará e a reabertura do cinema aparecem na seqüência de notícias que recolhemos:
CINEMA DiMAIO
Por informação que nos foi gentilmente fornecida por distinto cavalheiro
soubemos que o sr. Victor di Maio, há pouco chegado da capital da República,
está definitivamente decidido a reencetar no Ceará a sua vida ativa e proveitosa
ao desenvolvimento da nossa capital.
Cearense de coração, o sr. Di Maio tem escolhido o nosso Estado para
despender com toda a energia, a sua atividade, de preferencia a outros centros
que mais resultados lhe poderiam trazer.
(Jornal do Ceará, 22.6.12)
- - -
CINEMA DiMAIO
Sabemos que dentro em breve será reaberto, depois de reformado
totalmente, com a introdução de diversos melhoramentos, o “Cinema di Maio”, o
primeiro permanente que teve esta capital, devido aos esforços do infatigável
Victor di Maio que se dedicou inteiramente a este ramo de progresso na nossa
terra.
Estão sendo executados ali diversas obras, e talvez em pouco tempo
estarão concluídas.
(Unitário, 25.6.12)
- - -
CINEMA DiMAIO
O que deve ser preferido pelas nossas famílias.
Chic, comodo, elegante, arejado.
Inaugurar-se-á brevemente. Sucesso sem precedência.
(Anúncio no Jornal do Ceará,
10.7.12)
- - -
CINEMA DiMAIO
Efetuar-se-á no próximo dia 7 a reabertura do “Cinema DiMaio” que acaba
de passar por uma radical transformação em suas vastas
dependências.
O seu empresário principal, sr. Victor di Maio, que há pouco voltou da
Capital Federal, trouxe dali os mais aperfeiçoados aparelhos cinematográficos, a
par de grande variedade de filmes que alto sucesso teem alcançado nos centros
mais adiantados.
Será ali nessa ocasião exibida pela primeira vez, uma magnífica caixa de
música do afamado fabricante francez, accionada por energia
elétrica.
(Unitário, 5.9.12)
- - -
Este seria o último empreendimento de Victor DiMaio no Ceará, com duração de apenas dois anos.
No ano de 1913, em junho, o Cinema Di Maio, passou por sua última reforma, ficando “mais chic do que nunca”. As sessões noturnas das sextas-feiras foram então denominadas “Seràta Ròsa”.
Em fins de 1914, o abnegado pioneiro fecha seu cinema e deixa o Ceará. Os projetores do seu cinema seriam utilizados, tempos depois, pela firma Empreza Meirelles, Filho & Cia. no efêmero Amerikan Kinema, e o primitivo prédio passa a ser utilizado por Luiz Severiano Ribeiro, que desponta no cenário empresarial de cinema, com sua primeira sala: o Cinema Riche.
O último registro que encontramos do Cinema DiMaio, data de 10 de outubro de 1914, com o filme “Fantasma de Paris”.
---------------------------------------------
1.Ao longo deste trabalho o
nome de Victor DiMaio aparecer grafado de maneira diversa, como ocorria nas
publicações da época: Victor, Victo, Vittorio, di Maio, Di Maio, Di-Maio.
Procuramos respeitar os textos originais. O mesmo acontece com palavras
portuguesas que eram utilizadas diferentemente na época da publicação: seçao em
vez de sessão, sucego no lugar de sossego, são dois exemplos; bem como grafias
da época: cinematographo, theatro, etc. Pretendemos com isto manter a
autenticidade das citações.
2. A nossa pesquisa indica
que DiMaio desativou o seu cinema em Fortaleza, entre 1911 e junho de 1912.
Dinâmico empreendedor por certo andou semeando cinema em outras terras. Pelo
menos um é historicamente comprovado no Ceará: o Cinema Paraiso, na cidade
cearense do Crato, inaugurado a 3 de junho de 1911. Irineu Pinheiro, em
“Efemérides do Cariri” (Fortaleza, UFC, 1963), registra:: “1911, 3 de junho - Instalou, no Crato, a
firma Di-Maio & Vieira, na esquina da Praça da Matriz e Rua do Fogo,
chamadas, hoje, Praça da Sé e Rua Senador Pompeu, num prédio fronteiro à cadeia
pública, o Cinema Paraiso, o primeiro do sul do Ceará. Foi Di-Maio quem, também,
inaugurou cinema em Fortaleza. Morreu paupérrimo o velho Di-Maio, um dos
pioneiros da indústria cinematográfica do Brasil.”
3. Ainda sobre o Cinema
Paraiso, do Crato, temos o relato do memorialista cearense Tom Cabral (“Patuá
de Recordações”, Campinas, 1978;
págs. 92 a 94): “Todos os domingos, “seu
Cãindinho”, ou melhor Cândido José Lourenço - o tal parente que saíra, anos
antes, a exibir seu gramofone lá pelo Riachão - vinha de Barbalha até o Crato,
para a função do Cinema Paraiso, do qual era dono ou
arrendatário.
O Paraiso fora instalado uns
dois anos antes, ali por 1912, num prédio isolado, construído ou adaptado para
tal fim por um italiano, conhecido por Di Maio. Ficava situado na praça da
Matriz, defronte da cadeia pública, mesmo no desembocar da rua do
Fogo.
Num desses domingos, recebemos a visita do seu Cãindinho. Vinha
convidar-nos para conhecer o cinema e para assistir a um filme sobre a vida de
Napoleão Bonaparte.
Embora não pareça necessário, insisto em dizer que só não fomos os
primeiros a chegar, porque a banda de seu Zé Pereira já ali se encontrava, no
salão de entrada, pondo em evidência suas marchas e dobrados - o melhor chamariz
para aquela função.
O barulho era quase insuportável. No citado salão, a orquestra com seus
tambores, bombo e pratos. E, na sala de projeção, os espectadores arrastavam, à
proporção que iam entrando, as cadeiras de ferro soltas, dobráveis, naturalmente
com o intuito de conseguirem uma posição mais estratégica para não perderem
cenas do filme.
Havia duas classes distintas: a primeira, logo em seguida ao salão de
entrada e a segunda ou geral, perto da tela. Provida apenas de compridos bancos
sem encosto, nesta o ingresso custava apenas a metade do da primeira. As classes
ficavam separadas por uma grade de madeira. Antes do início do espetáculo, a
orquestra encostava a bateria e
vinha-se postar no fim da primeira classe, junto à grade. Tocava, durante o
desenrolar do filme, de preferência valsas, choros e dobrados, conforme a
natureza do enredo. Durante a exibição, havia três, quatro e até mais
intervalos, para a mudança das partes, no projetor.
Tudo aquilo era novidade para nós. Mas o que nos causou maior impressão
foram os enormes cartazes que forravam as paredes internas, com a apresentação
de cenas cômicas, de lutas de boxe ou de filmes famosos. Um deles era
aterrorizante: duas mulheres desciam, apavoradas, uma escadaria, perseguida por
descomunal sapo que vinha surgindo no topo da escada. Concluímos logo que aquele
gigantesco batráquio só poderia ser o tal “sapo-boi-do-Amazonas”, de que tanto
se falava...
Parece que fazia parte do programa o prego do motor, porque, como de
costume, fez retardar meia hora ou mais o início do espetáculo. E ninguém
reclamava a demora, porque o motor só funcionava mesmo quando
queria...
Para nós, o começo do espetáculo começava com o treinamento da projeção,
lançando focos de luz sobre a tela, como procurando um lugar mais conveniente
para estacionar. Durante esse treinamento, vinham da cabine do operador os
avisos da sineta. Eram três: uma sinetada, para prevenir os espectadores e
animar os indecisos, postos nas adjacências do edifício; as duas sinetadas
seguintes vinham acompanhadas do apagar parcial das lâmpadas e, nas três finais,
a escuridão se tornava completa, dando-se início, em primeiro lugar, a um filme
de curta metragem.”